segunda-feira, 14 de setembro de 2015

ANTES DA CHUVA

"A Terceira Imagem da Tela" resolveu ir até a Macedônia - oficialmente, Ex-República Iugoslava da Macedônia, termo utilizado para não haver confusão (mesmo) com a região grega do mesmo nome - para relembrar um grande filme de meados dos anos 90.

ANTES DA CHUVA (Pred dozdot - Macedônia, Inglaterra/1994) se apresenta em três sequências demarcadas, mas que se entrelaçam, experiência recentemente repetida em filmes de Alejandro Iñárritu (21 Gramas, Amores Brutos, entre outros), sendo que de maneira mais relaxada, o que dá ao espectador mais liberdade de se envolver no roteiro - nada contra Iñárritu, do qual tenho muitos elogios a fazer.

A história se passa, como já citado, na Macedônia, especificamente após este país se desvencilhar da Iugoslávia, antiga nação que era composta de seis repúblicas federadas e cujo processo de desintegração foi bem heterogêneo, tendo a Eslovênia se separado sem praticamente nenhum confronto bélico, enquanto que a Bósnia-Herzegovina mergulhou numa guerra horrorosa por três anos e que até hoje rende más consequências ao país.

A Macedônia vivenciou poucos episódios sangrentos, mesmo porque era a parte mais pobre e distante da Iugoslávia, e talvez por isso não valeu tanto a pena brigar por ela, e parte deste conflito é mostrado no filme em questão.

Na primeira parte, denominada Palavras, nuvens de chuva vêm se aproximando Kiril, um monge macedônio que fez voto de silêncio, descobre uma albanesa escondida em sua cela no mosteiro, a qual é acusada de assassinar outro macedônio. Mesmo sem entender nada do que a moça fala (e mesmo se compreendesse, dado o voto de silêncio, Kiril não trocaria sequer um "olá" com ela), ele a oculta dos seus superiores, pondo todo o mosteiro sob perigo quando guerrilheiros macedônios insistem em vasculhar o local à procura da suposta homicida.

Na sequência, Rostos se desenrola a quilômetros dali, em Londres, onde a editora Anne tem um relacionamento extraconjugal com o premiado fotógrafo Aleksander (grandemente interpretado pelo grande Rade Serbedzija, de Busca Implacável II), o qual quer que ambos vão para a Macedônia, sua terra natal. Mas para isso, Anne tem que se resolver com seu marido Nick, e num jantar a dois em um restaurante londrino, alguns eventos dão a tônica deste impasse.

Imagens, a terceira parte, nos leva de volta à Macedônia, conjugando os dois primeiros trechos do filme, quando Aleksander decide se estabelecer de vez em sua aldeia, mas se surpreendendo ao encontrar albaneses e macedônios, que conviviam pacificamente, guerreando entre si, tendo ele dificuldade de entender como vai se relacionar com uma ex-amiga, albanesa, cuja irmã desapareceu acusada de matar um macedônio, o que ocorreu ANTES DA CHUVA...

Prêmio de Melhor Filme do Festival de Veneza de 1994.

DE 0 A 10 = NOTA 10!

Obra que foi pioneira em mostrar os conflitos étnicos que assolaram os Bálcãs por décadas pós-comunismo, sendo praticamente o mais brilhante filme macedônio produzido até hoje.

A fotografia é inebriante, com ênfase em cenas estáticas que vão desde as inóspitas montanhas macedônias, pontuadas de vilarejos e mosteiros ortodoxos, até recantos de Londres. 

A trilha sonora, assinada pelo grupo Anastasia, cem por cento composta por elementos balcânicos, caiu em cheio no meu gosto. 

As interpretações são marcantes, de uma dramaticidade hercúlea.

O roteiro, como mencionado, resulta no casamento de duas histórias que virtualmente pouco tinham em comum, mas que se mesclam de um modo maravilhoso.

Porém, as três partes, da forma como tudo ocorre, poderiam perfeitamente ser arranjadas em qualquer ordem, não importando qual iniciaria e qual encerraria esta tripartição, o que se justifica na frase-moral-da-história que é dita mais de uma vez neste filme:

"O tempo nunca morre; e o círculo nunca é redondo".

Um épico!

Abaixo, uma canção do soundtrack, Pass Over (espetacular!), com cenas do filme.  


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