segunda-feira, 29 de junho de 2015

CIDADÃO X


Filmes policiais são parte de um gênero que agrada a grande maioria dos cinéfilos, e mesmo aqueles não muito afeitos ao cinema.

Alguns se destacam por serem inspirados em fatos que realmente aconteceram, e dentro deste grupo existe um subconjunto, composto por aqueles que foram baseados em casos verídicos e que trazem um componente diferenciado.

CIDADÃO X (Citizen X - EUA/1995) se encaixa nesta última categoria, por motivos peculiares.

Uma série de assassinatos brutais, cujas vítimas são crianças e mulheres, não desperta muita atenção das autoridades soviéticas nos anos 80, as quais se limitam a investigar cada caso isoladamente, isto por meio da inoperante burocracia característica daquele regime.

Intrigado, um legista, examinando os corpos, percebe o mesmo modus operandi entre os crimes, o que lhe leva a deduzir que se tratam de atos provocados por uma única pessoa, mas sua tese não convence seus superiores. 

Obstinado, o médico é auxiliado, às escondidas, por um alto oficial russo, que está convicto de que um serial killer (sem mencionar esta nomenclatura em momento algum) é o responsável pelos homicídios, e ambos somam esforços na captura do criminoso, num país que não dá qualquer suporte para este tipo de trabalho.

No elenco, os competentes Stephen Rea e Donald Sutherland.

Melhor filme no Sitges Film Festival de 1995.

DE 0 A 10 = 8,5

A razão para este filme se sobressair, entre tantos filmes que abordam assassinos em série, é exatamente pela não aceitação terminológica do tipo penal ali narrado pela ex-URSS - assassinatos em série.

O filme narra a real história de Andrei Chikatilo, um cidadão soviético comum que de 1978 a 1990 cometeu bárbaros crimes em Rostov, uma cidade perto de Moscou, sem despertar qualquer suspeita, já que suas vítimas eram, em sua maioria, indivíduos que o próprio regime comunista se empenhava em omitir a existência (crianças de rua, prostitutas, dependentes químicos etc).

Ademais, um ponto muito interessante é que aquele governo julgava os serial killers como um fenômeno exclusivo da "decadente civilização ocidental", impossível de ocorrer em países socialistas, se negando a enxergar os acontecimentos em Rostov como algo fora do normal.

Aliado a este dado, a polícia da época não possuía o menor traquejo de lidar com uma situação tão atípica, pois era um aparato essencialmente treinado para coibir apenas delitos políticos e pequenas infrações civis, o que fez com que os investigadores trabalhassem às cegas, à procura de uma pessoa de quem sequer tinham a menor pista, um cidadão obscuro e incógnito por completo, um Cidadão X. 

Tudo isso deu a Chikatilo todo tempo e recurso para agir de maneira tão perversa, praticamente sob um auspício involuntário de uma sociedade que não reconhecia que entre eles poderia haver um demente tão perigoso.

Vai aí o trailer em espanhol.



quinta-feira, 25 de junho de 2015

LANTERNAS VERMELHAS

No início da década de 90, talvez um pouco antes disso, uma contagiante febre pela cinematografia oriental varreu o planeta, escancarando as portas do outro lado do mundo para bons trabalhos que até hoje chamam muito a atenção dos críticos e do público.

De uma hora para outra, os cinemas se encheram de produções chinesas, vietnamitas e taiwanesas - majoritariamente - que (felizmente) iam além do show de tapas e pontapés que os filmes de artes marciais, até então os únicos representantes notórios do Extremo Oriente na Sétima Arte, mostravam impiedosamente.

LANTERNAS VERMELHAS (Dà Hóng Dēnglóng Gāogāo Guà - China, Hong Kong/1991) se destaca nesta alvissareira primeira safra, e por diversos motivos. 

Primeiramente, e principalmente, pela história, baseada numa antiga peça teatral e fielmente copiada para as telas.

Anos 20. Uma ex-estudante universitária, após a morte do pai, é vendida pela madrasta para um rico senhor feudal para ser sua quarta... esposa (!) 

Emancipada e arredia, ela luta para se adequar às regras na sua nova vida, enclausurada no enorme castelo de seu senhor/marido, tendo que dividir as atenções dele com as outras três concubinas, cada uma com traços físicos e temperamento bem variados.

Todas as noites, o senhor (cujo rosto nunca é exibido) tem de escolher com que esposa vai dormir, pendurando lanternas vermelhas na entrada dos aposentos da premiada, o que lhe garante privilégios e regalias (como, por exemplo, determinar o menu do almoço do dia seguinte), ao passo que quanto menos uma concubina é selecionada para aquela atividade matrimonial, mais a mesma enfrentará o desprezo de todos, inclusive dos empregados.

É óbvio que as quatro senhoras vão se esmerar por todos os meios para conseguir laçar o esposo, numa competição que constrói uma intrincada rede de intrigas e onde uma jogada mal calculada pode lançar todos numa fogueira. 

Até que uma delas joga da forma mais incalculada possível.

Leão de Prata de Melhor Diretor no Festival Internacional de Cinema de Veneza de 1991.

DE 0 A 10 = NOTA 10!

Como mencionei acima, muitas razões fazem esta obra ser sui generis.

Gong Li, a protagonista, praticamente apareceu para o Ocidente com este filme. Dona de uma formosura que é quase irreal, durante anos foi estrela de nove entre dez filmes chineses, alguns muito condecorados em vários festivais. Conseguiu, inclusive, papéis em filmes americanos, como Hannibal.

O filme foi todo filmado dentro de uma edificação imperial em Shanxi, e não num cenário construído para tal fim, tendo o lugar se tornado concorrida atração turística após o sucesso do filme.

A temática imediata, claro, é a condição feminina da China naquela época, assunto tão polêmico que o filme passou um tempo proibido em seu país de origem, e a ideia central pode ser bem traduzida durante um diálogo, em certo momento do enredo:

"Acende lanternas, apaga lanternas, cobre lanternas. O que me importa? O que me importam as pessoas desta casa? São como gatos, cães, ou ratos. Mas com certeza, não são gente"

Temos aqui o trailer em inglês.






segunda-feira, 22 de junho de 2015

A BANDA

A BANDA foi real.


Ainda hoje me pego sem acreditar que o que se passou no filme A BANDA (Bikur ha-Tizmoret - Israel/2007) é baseado em fatos reais.

Ou seriam surreais, com todo o poder da palavra?

Mas foi, A BANDA aconteceu. Aconteceu de uma banda militar egípcia ir para Israel, a fim de se apresentar em um concerto, e se perder naquele pequeno e antagonista lugar.

Tendo marcado hora no aeroporto para serem pegos por uma van e chegarem a seu destino, os músicos acabam perambulando a esmo, tudo em razão de uma informação passada equivocadamente.

São recebidos numa minúscula cidade no meio do deserto, com seus melancólicos e invariáveis blocos de apartamentos, onde seus habitantes têm por rotina apenas observar as horas se passarem.

A princípio, como esperado, o primeiro contato dos nativos com estes extraterrestres não é muito amistoso (detalhe: nenhum deles fala hebraico, e apenas dois falam inglês).  Mas como as fronteiras políticas são invenções humanas, ao transpassá-las, ambos os lados vão descobrindo que têm muito a compartilhar.

Prêmio do Júri Coup de Coeur na mostra Un Certain Regard, do Festival de Cannes de 2007.

DE 0 A 10 = NOTA 9

Nunca torci tanto para um casal - o general líder da banda e a dona da lanchonete (a belíssima Ronit Elkabetz) - dar certo no cinema.


Cada um com sua guerra própria, buscando um cessar-fogo, assim como todos os outros personagens, que construindo juntos uma fábula (real!), enfim, fazem as horas que teimosamente passam quererem parar para, pela música ou pelas palavras incompreendidas, dizer a Isaque e a Ismael, filhos do patriarca Abraão, que a pendenga que eles começaram há milênios atrás já está na hora de acabar.

Trailer!




quinta-feira, 18 de junho de 2015

A CAMINHO DE KANDAHAR

Vem do hermético Afeganistão a história do nosso filme de hoje.

O mundo tentava respirar um ar puro, ainda baço pela poeira do desabamento das duas torres do World Trade Center em Nova York, quando A CAMINHO DE KANDAHAR (Safar e Ghandehar - Irã/2001) entrou em cartaz nos cinemas nacionais.

Havia uma atmosfera pesada, que gerou até especulações que o Taliban, em pouco tempo, chegaria a esta parte do planeta. Paralela ao medo, crescia a perplexidade, alimentada pela curiosidade de se compreender por que tudo aquilo tinha acontecido.

Lembro-me quando fui assistir a este filme lá no cinema do Teatro do Parque (que hoje, lamentável observação, "respira com a ajuda de aparelhos"). A sala estava lotada! Todos queriam sair com respostas aos questionamentos acerca desta filosofia de vida, baseada numa interpretação literal de um dos ramos do Islamismo e que culminou em aviões se chocando com edifícios lá nos até então inexpugnáveis Estados Unidos da América. Não satisfeito, voltei dias após para ver a obra de novo.

Nela, Nafas é uma médica afegã que vive exilada no Canadá.

Um dia, ela recebe uma carta de sua irmã, que mora na cidade de Kandahar, no Afeganistão, explicando que, em razão da dura realidade do país sob o regime do Taliban, decidiu se suicidar no próximo eclipse solar, que ocorrerá em poucas semanas.

Nafas, então, parte para salvá-la. E entrando clandestinamente em seu país natal, vai redescobrindo uma terra tão ferida quanto a sua própria história pessoal.
Prêmio de Melhor Filme pelo Júri Ecumênico no Festival de Cannes de 2001.

DE 0 A 10 = NOTA 10!

Foi um dos primeiros trabalhos a expor como o Afeganistão viveu debaixo do governo insano do Taliban, que durou de 1996 a 2001.

Muitas cenas parecem ter saído de um documentário, de tão pungentes que são, havendo uma em particular, a dos mutilados disputando uma corrida no meio do deserto para conseguirem próteses arremessadas de um avião, que me impressionou muito, dado o cruel lirismo que evoca. Jamais me esquecerei dela.

A jornada empreendida pela personagem principal, narrada em primeira pessoa, é muito tocante, especialmente pela fidelidade à sua irmã, numa prova de amor raramente vista no cinema.
Segue o trailer em italiano (foi só o que deu para conseguir). Caso não entendam, as imagens falam por si.


segunda-feira, 15 de junho de 2015

7 CAIXAS

O Paraguai tem cinema, sim senhor!

E dos bons.

Qual não foi minha surpresa ao assistir a 7 CAIXAS (7 Cajas - Paraguai/2012) e ter esta constatação? 

É um filme policial bem interessante, com uma produção bastante satisfatória e um enredo que deveras prende o espectador já nos primeiros minutos de filme.

A coisa toda é simples de captar. 


Victor, um jovem que trabalha como carretero (carregador de compras em carretillas, um carro-de-mão de madeira), é contratado por um amigo empregado em um açougue para dar umas voltas (isso mesmo, ficar zanzando apenas por poucos minutos) com sete caixas de madeira cujo conteúdo ele não revela.

Na esperança de ganhar os cem dólares prometidos para o serviço, Victor vagueia com as caixas pela feira livre de Assunción, e o roubo de uma das caixas é apenas o início de uma longa série de confusões que vão se avolumando no decorrer da produção, cujo resultado é completamente imprevisível.

E as variantes que determinarão o futuro de Victor nesta equação são: 1 - o conteúdo das caixas; 2 - a razão para ele sair com elas por um mercado lotado de gente; 3 - a participação de cada personagem que adentra, conscientemente ou não, na intrigante história; e 4 - o tempo que vai passando sem que as caixas voltem para o açougue.

Ganhador dos prêmios Cine en ConstrucciónPremio Euskaltel de la Juventud no Festival Internacional de Cinema de San Sebastian de 2012. 

DE 0 A 10 = NOTA 8

Não pisque os olhos e nem saia de frente da tela para pegar lo que sea, pois tudo nesta ficção pode mudar em questão de segundos. 

Naturalmente não espere uma superprodução, apesar de 7 CAIXAS dar de lavada em muitos filmes policiais holywoodianos. Tem seus momentos de humor, mas quando resolve ser tenso, dá conta do recado.


Houve uma hora que achei que tinha gente demais envolvida na trama, e que não estava como figurante fazendo feira por lá... Mas dá para tirar por menos.

E para variar, ainda tem diálogos em guarani. Isto é Paraguai!

Confira o trailer e assista ao filme!



sexta-feira, 12 de junho de 2015

MIELE


MIELE (Miele - Itália, França/2013) é um filme que lança uma reflexão profunda sobre a vida em si e a viabilidade de preservá-la natural e espiritualmente. Mas para se chegar a esta conclusão, é obrigatória uma incursão exatamente nas definições do estado conceitual diametralmente oposto - o da morte.

E é por isso que a história se torna mais atraente.

Irene (interpretada pela bela Jasmine Trinca) vive sozinha numa casa à beira-mar, afastada da cidade, estudou até o segundo ano da faculdade de Medicina e desempenha um trabalho nada ortodoxo - ajuda as pessoas a morrerem. 

Sob o codinome Miele ("mel" em italiano), ela é acionada cada vez que alguém manifesta o desejo de partir desta vida, pessoas acometidas de alguma doença física incurável. Diligentemente, sem qualquer remorso ou culpa, ela administra dosagens mortíferas de um barbitúrico usado em sacrifício de cães para que os interessados as ingiram.

Um dia, seu intermediário a apresenta a um novo "cliente", Grimaldi, um velho engenheiro, a quem Miele dá uma quantidade da substância, como de costume.

O problema é que, logo após, Miele descobre que o homem não sofre de qualquer mal, tendo contratado seus serviços simplesmente porque desistiu de viver. Em outras palavras, Miele não estaria auxiliando em uma eutanásia, mas cometendo um assassinato.

E isto ela não quer fazer. 

Melhor filme do Festival Internacional de Cinema de Ljubljana em 2013, e Menção Honrosa pelo Júri Ecumênico da Mostra Un Certain Regard, no Festiva de Cannes de 2013.

DE 0 A 10 = NOTA 8... PENSANDO BEM, NOTA 9

Para quem milita pró ou contra a eutanásia, legalmente falando, aconselho que não assista a este filme. 

Como se pode ver, a protagonista exerce a prática de maneira totalmente clandestina, ou seja, a discussão passa quilômetros longe de qualquer tribunal.

Para quem quer ver algo sob esta perspectiva do tema, melhor experimentar o ótimo Mar Adentro, da Espanha.

O eixo do roteiro é sopesar o quanto Miele entra em confronto com seus princípios no momento em que, repentinamente, decide salvar uma vida ao invés de ajudar a abreviá-la, como vinha fazendo. 

E agindo assim, ela percebe o quanto está morta, mas em vida, na medida em que muitos de seus projetos passados foram fracassando e ela não teve força suficiente para reativá-los.

E lutando para salvar a vida de Grimaldi, sem querer, Miele vai salvando a sua própria vida. 

O trailer de MIELE em espanhol.




quarta-feira, 10 de junho de 2015

A JAULA DE OURO

Dia desses, quando percebi um trabalho vindo da América Central disponível para ser assistido, fui de imediato conferir.

Tenho certeza que muitos filmes de boa qualidade são feito naqueles países, mais conhecidos pelo vibrante turismo, porém é lamentável que não se dê muita difusão aos mesmos, seja porque os estúdios não tenham interesse pelas tramas, ou porque de fato seus próprios realizadores não esperam um êxito naquilo que fazem.

Não creio nesta segunda possibilidade, até porque quem produz qualquer obra cinematográfica visa expandi-la até o rincão mais longínquo. 

Sob esta órbita, se A JAULA DE OURO (La Jaula de Oro - México/2013), chegou às antípodas do planeta, não se pode afirmar com segurança, mas que este filme se destacou de uma maneira especial, isso é inegável.

Seu enredo mostra a história de três jovens, dois rapazes e uma moça, que vivem em uma favela na Guatemala e que decidem partir de casa com o objetivo de atravessar ilegalmente a fronteira norte-americana e encontrar trabalho nos EUA.

Entre os dois países está o gigante México, e é ali que um índio se junta aos adolescentes na incerta jornada na tentativa de terem uma vida mais digna em solo ianque. 

No longo percurso que trilham, muitos perigos e desafios ora estreitam seus laços de amizade, ora os põem um contra o outro. Mas a viagem segue, sem a certeza de que haverá a concretização do sonho em comum que eles cultivam. 

Vencedor de dois prêmios na 37ª Mostra de Cinema de São Paulo, além da láurea A Certain Talent para o seu diretor, Diego Quemada-Diez, no Festival de Cannes de 2013.

DE 0 A 10 = NOTA 8

O roteiro do filme serve como espinha dorsal para uma análise dos problemas que se abatem sobre os países daquela região do mundo.

Narcotráfico, corrupção política e policial, pobreza, trabalho clandestino, tudo incorporado numa história em que a falta de alternativas gera um destemor que não sabíamos que era possível se manifestar. 

A América Central, dada a proximidade com os EUA, tem sua história recente muito atrelada àquela nação do Norte, mormente no campo econômico, não tendo os americanos o menor desejo que aqueles países se emancipem, porque grandes fornecedores de mão-de-obra barata.

Sobre isto, reportagens recorrentes, algumas baseadas em estudos de pequenas ONG´s e da Anistia Internacional, apontam que a imigração ilegal de trabalhadores que chegam do México para baixo, de certa maneira, sofre vista grossa dos EUA quando lhes é conveniente, e quando não, é punida com extremo rigor, e paralelamente, alguns governos da região, em especial o México, até estimulam este fluxo, pois assim têm menos dor de cabeça em lidar com o desemprego doméstico.

A questão principal do filme é avaliar o custo-benefício de uma mudança não apenas geográfica, em que a busca por melhoria pode até nos trazer os esperados frutos, mas onde igualmente é cobrado um preço moral que não raro nos aprisiona - onde? - numa jaula, ainda que de ouro.

Segue o trailer.


   

segunda-feira, 8 de junho de 2015

IDA

A Polônia é um país que muito tem contribuído para a Sétima Arte.

Dona de uma história rica, não se requer um esforço hercúleo para se criarem grandes épicos, mesmo quando este país estava enfurnado na Cortina de Ferro (aliás, por oportuno, o cinema polonês serviu como uma das principais "janelas" para o Ocidente conhecer como era o cotidiano dos países comunistas do Leste Europeu).

Prova disso é a memorável coletânea Decálogo, de Krzysztof Kieslowski - onde se ensaia, em dez filmes distintos, como seria a pragmática dos dez mandamentos bíblicos dentro de uma sociedade em que o homem assumiu as rédeas das atribuições divinas - produção sobre a qual espero um dia escrever algumas linhas por aqui, na "Terceira Metade".

E este ano, a assertiva se verificou verdadeira mais uma vez. IDA (Ida - Polônia/2013) ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, depois de faturar outras premiações em outros festivais.

Conhecemos então a história de Anna, uma bonita noviça que está prestes a fazer os votos e se tornar freira. Mas antes de se isolar em definitivo no convento, ela vai em busca de uma tia, Wanda, sua única parente viva. 

Essa tia termina por revelar a verdadeira história de Anna, declarando que em verdade ela se chama Ida, e que ela, Ida, uma quase freira, é judia (!)

A partir destes novos fatos não mais encobertos, consequências óbvias, e outras nem tanto, ocorrem na vida de Ida.

DE 0 A 10 = NOTA 9

A trama, filmada em preto e branco, se passa nos anos 60, ou seja, pouco tempo depois de a Polônia sair arrebentada da 2ª Guerra Mundial.

Por tratar de temas tão caros à recente história polonesa (2ª Guerra, Igreja Católica, comunismo), o filme se torna praticamente uma vitrine da vida nacional naquela época, uma deliciosa aula, sem descaracterizar o foco principal da produção, que é mostrar como Ida vai lidar com o tsunami personalíssimo que a engolfou.

O roteiro é linear, e mesmo quando se remontam fatos do passado, as cenas e o ritmo não são cansativos.

Obra que consolida a certeza de como a descoberta da verdadeira identidade pode impactar nossas escolhas, e do quanto não podemos negar quem de fato somos, mesmo quando as circunstâncias se desenham adversas. 

Cinema nominalmente de arte da melhor qualidade!

Vejam o trailer.



(PS - Resenha dedicada à minha mãe, Dona Lena, minha fiel companheira em muitas sessões caseiras de cinema) 

sábado, 6 de junho de 2015

DRIBLANDO O DESTINO


O engraçado de trabalhar com choques culturais no cinema é perceber que no fim somos todos "farinha do mesmo saco", pois muito mais numerosos os fatores que nos unem do que os que nos dividem.  Como já disse o patriarca de Casamento Grego, "laranjas e maçãs, somos frutos da mesma árvore".

Em DRIBLANDO O DESTINO (Bend It Like Beckham - Inglaterra, Alemanha, EUA/2002), a paixão pelo futebol aproxima ingleses e indianos, povos que mal se encontram na mesma sala de estar e que, nesta comédia, compartilham das quatro linhas para construírem uma história bem peculiar.

Jesminder vive na Inglaterra com sua família indiana, é fã de futebol e do jogador David Beckham. Dentro de uma comunidade tão conservadora como a que vive, a dos sikhs, dispensável constar que seus parentes não engolem bem esta admiração, tudo ainda agravado pelo fato de a irmã mais velha de Jesminder ser uma "indiana padrão" e de estar prestes a casar como mandam os cânones, gerando as inevitáveis comparações entre as irmãs por parte de seus pais. 


Mas Jesminder é insistente, e conta com a ajuda de uma colega de time, Juliette, para treinar e, enfim, conseguir uma vaga num time local. E claro, tudo sem que a família de Jesminder saiba. 

A paixão em comum das duas não se restringe ao futebol: o treinador do time entra na mira das atenções de ambas as amigas, e com a crescente frequência de partidas que tem de jogar, algumas até mesmo fora do país, Jesminder se vê cada vez mais obrigada entre escolher o traçado predestinado que suas tradições lhe guardaram ou os seus sonhos íntimos, que vão se tornando mais reais a cada partida que disputa.

DE 0 A 10 = NOTA 8.

Divertido e sem muitas pretensões, DRIBLANDO O DESTINO dosa fatores antagônicos de uma maneira tão palatável que quase é necessário lembrarmos à protagonista que tem gente em sua casa lhe esperando, e que não necessariamente vai recebê-la com um sorriso no rosto.

Embebido da mais autêntica, simpática e extravagante cultura indiana, traz uma trilha sonora muito legal, com os artistas que cantam em hindi mais vanguardistas possíveis.

Ideal para dar uma aliviada a qualquer momento do dia.

Segue o clip do filme, embalado com o tema Hot, Hot, Hot, de Bina Mistry.





quinta-feira, 4 de junho de 2015

A IMAGEM QUE FALTA

Sobre o documentário A IMAGEM QUE FALTA (L´image Manquante - Camboja, França/2013), ganhador do Prêmio do Júri na Mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes de 2014, excepcionalmente deixo para que o diretor Rithy Panh fale a respeito:

"Há tantas imagens no mundo, que acreditamos ter visto tudo. Pensado tudo. Há muitos anos que procuro uma imagem que falta. Uma fotografia tirada entre 1975 e 1979 pelos Khmers vermelhos, quando dirigiam a Camboja. Claro, por si só, uma imagem não prova o crime em massa; mas faz pensar; faz meditar. Ajuda a construir a história. Procurei-a em vão nos arquivos, nos documentos, nas aldeias do meu país. Agora sei: essa imagem deve faltar; e não a procurava – não seria obscena e sem significado? Então fabrico-a. O que eu ofereço hoje não é uma imagem, ou a busca de uma única imagem, mas a imagem de uma busca: aquela que o cinema permite. Algumas imagens devem continuar a faltar, devem sempre ser substituídas por outras: nesse movimento encontra-se a vida, o combate, a pena e a beleza, a tristeza dos rostos perdidos, a compreensão daquilo que existiu; por vezes a nobreza, e até a coragem: mas o esquecimento, nunca"

DE 0 A 10 = NOTA 10, COM MUITO LOUVOR!

O que quer que eu diga a respeito deste filme não será suficiente para expressar tamanha beleza.

Sim, é verdade que a história do Camboja quando do regime comunista do Khmer Vermelho, entre os anos de 1975 e 1979, já rendeu boas produções, como o poderoso Os Gritos do Silêncio. Mas da forma como agora foi feito... 

Recriar o cenário cambojano durante um dos períodos mais sombrios do século XX utilizando bonecos de barro é de uma singeleza e elevação que dispensam maiores comentários.

O Khmer Vermelho objetivou a criação do "homem novo", aos moldes do que já pretendia Jean-Jacques Rousseau, que acreditava na corrupção do ser humano no momento em que era inserido no contexto social vigente.

Para implementar tal projeto, todos os cidadãos cambojanos foram obrigados a abandonarem as cidades apenas com a roupa que vestiam e viverem como camponeses. O país se encheu de cidades-fantasma e, sem eletricidade, viveu na penumbra dos lampiões.

Artistas, universitários, religiosos, profissionais de toda espécie e qualidade foram executados, pois a meta remontava a aristotélica "tábula rasa": uma lobotomia total na população, todos voltando ao ponto de partida, calcados nos princípios socialistas mais puros, do lugar onde tudo teve início. 

Do campo. Do barro.

O mesmo barro que agora vira arte. A mesma arte que foi satanizada pelo Khmer Vermelho.

Museus, teatros, estádios, escolas, faculdades, bibliotecas, cinemas e templos religiosos foram transformados em chiqueiros, prisões, centros de tortura. 

O dinheiro foi abolido, sendo o quase inexistente e clandestino comércio baseado no escambo. 

Todos deviam usar roupas negras. 

Para ser condenado à morte, bastava saber falar algum idioma estrangeiro, portar um livro, usar maquiagem ou óculos de grau, cantar uma canção qualquer...

A contagem do tempo foi zerada. O primeiro ano da revolução, 1975, foi rebatizado de "Ano Zero", sendo o calendário da Nova Era contabilizado a partir dele.

Tudo em prol do nascimento de uma nova forma de pensar: um pensamento que não pensa.

E à procura da IMAGEM QUE FALTA, o diretor, que perdeu a sua família inteira sob aquele governo que extrapolou todos os limites da insanidade, como um diminuto Davi perante um Golias infinitamente mais forte, lança uma pedra certeira na testa do revisionismo histórico, trazendo o Camboja de volta à vida pulsante que este antiquíssimo país sempre exaltou.

Tenho orgulho em dizer que, num dia de semana, à noite, sentado no sofá da sala, diante da tela, por cerca de duas horas, EU TAMBÉM FUI CAMBOJANO.

O trailer.


quarta-feira, 3 de junho de 2015

TERRA ESTRANGEIRA

Brasil-sil-sil!


Hoje "A Terceira Metade da Tela" faz um pit stop em casa, para falar de um filme que fez um sucesso estrondoso quando estreou nos cinemas nacionais, em meados dos anos 90, mas que hoje apenas os cinéfilos inveterados o têm na (boa) lembrança - TERRA ESTRANGEIRA (Brasil, Portugal/1996).

È vero que o tema musical, interpretado por Gal Costa, e a participação de Fernanda Torres no elenco (atriz com tendência nata para o cinema, muito mais que para a TV) deram um fôlego extra a uma produção já destinada a surpreender o público, mas o enredo tem méritos próprios, abordando um tema que até então era obscuro por aqui: a imigração ilegal de brasileiros para a Europa.

Tudo começa quando Paco, um jovem desempregado, perde quase ao mesmo tempo a mãe e as economias que esta mantinha na caderneta de poupança. Como a trama se passa no início do governo do ex-presidente Fernando Collor de Mello, dá para entender como esse dinheiro evaporou...

Paco sempre alimentou o sonho de conhecer a terra de seus antepassados - o País Basco, um pedaço nervoso do norte da Espanha - e está bastante revoltado com o Brasil, além de sem emprego, conjunção de fatores que o leva a aceitar transportar um pacote suspeito para Portugal, a pedido de um homem que ele nunca viu na vida, tendo a viagem de ida completamente paga para tal fim, sem sequer ele saber o conteúdo da encomenda.

Com um roteiro assim, o que você, leitor, acha que acontece?

Pois é, dá um buruçu daqueles.

E daí em diante? E onde Fernanda Torres entra na história? 

É meu dever de ofício lhes recomendar assistir para descobrir.

Ganhador da Margarida de Prata de 1997, prêmio que a CNBB dedica a filmes que discutem profundamente os valores humanos.

DE 0 A 10 = NOTA 9

TERRA ESTRANGEIRA apareceu na época em que o cinema brasileiro de boa qualidade saía da UTI, após quase ser ferido de morte: em 1990, Collor extinguiu por decreto a Embrafilme, estatal que tinha por finalidade divulgar o Brasil por meio de produções cinematográficas, aqui e lá fora.

Desde então, quase nada caseiro de bom era exibido nas nossas telonas, situação esta que começou a mudar ainda nos anos 90, quando, por exemplo, tivemos três indicações quase seguidas para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro - O Quatrilho, O que é isso, Companheiro? e Central do Brasil

Bons tempos aqueles...

Totalmente em preto e branco, o que acentua a atemporalidade e a dramaticidade da trama, o filme conta com um elenco muito bom (fora a já mencionada Fernanda Torres, lá estão Laura Cardoso, Alexandre Borges, o talentoso Luis Mello, além de atores portugueses e outros brasileiros), ao mesmo tempo em que explora uma fotografia diferenciada e inspiradora.

Vale muito a pena ver!

Olha o trailer!





segunda-feira, 1 de junho de 2015

A PARTIDA

O milenar questionamento acerca da certeza da morte e do que se sucederá na sequência, não poderia ser diferente, povoa as telas do cinema.

Em A PARTIDA (Okuribito - Japão/2008), vislumbramos uma amostra de como este apaixonante tema pode render belíssimas histórias que permeiam o tempo e são referenciais não somente no campo artístico, mas igualmente no corifeu das nossas emoções.

Narra a história de Daigo, um violoncelista que, após ficar desempregado, é obrigado a se mudar com a sua esposa para uma cidade do interior japonês para procurar emprego. 

A busca gera êxito, mas o trabalho que o ex-músico arranja lhe desconcerta - ele será "arrumador de defuntos", alguém que lava, maquia e veste os recém-falecidos, preparando-lhes para o velório e a cremação, um ofício execrado pela sociedade japonesa, mas que obviamente tem que ser exercido por algum candidato.

Omitindo sua nova ocupação de todos, Daigo se aprofunda nos mistérios do ritual funerário. Porém, paralelamente, o mais visceral conceito de vida brota em sua alma, de modo surpreendente.

Ganhador do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2009.

DE 0 A 10 = NOTA 10!

A amálgama ocidental que se construiu em torno do povo japonês, que os condenou a um estereótipo de gente fria e sem sentimentos, desmorona por completo neste filme.

Daigo incorpora vários estágios da existência humana, de forma bastante desordenada, mas com a realidade que passa a viver por meio de sua nova profissão termina por arrastar o espectador ao seu conflito íntimo, numa trajetória em que cada etapa sugere um novo alento para se prosseguir na busca por reparação espiritual.

Mais do que um filme sobre a morte, A PARTIDA é o estado da arte no conceito 'vida'.

Inesquecível.

Abaixo, o trailer e, como singelo regalo a você, caro leitor, um trecho da arrebatadora trilha sonora.