segunda-feira, 31 de agosto de 2015

TEZA

Haveria algo mais exótico do que cinema etíope?

Pois é, mas não chega a ser novidade que a Etiópia já possui uma grande tradição dentro da Sétima Arte, em parte voltada para a doutrinação política.

E é sob esta dinâmica que TEZA (Teza - Etiópia, Alemanha/2008) desponta como uma experiência agreste e marcante, discorrendo sobre uma época sombria da história do país, logo após a queda do imperador Hailé Selassié, mais conhecido como o Ras Tafari (de onde surgiu o conhecido movimento pacifista que ganhou projeção global a partir da Jamaica, sem, no entanto, ter qualquer ligação com o filme aqui abordado).

Amberber é um jovem idealista, que na década de 70 cria no marxismo como a solução para os desajustes do regime imperial que o Ras Tafari comandava. Sendo estudante de medicina, consegue uma bolsa de estudos para uma pós-graduação na Alemanha Ocidental.

Tentando se adaptar àquela sociedade tão hostil com os imigrantes, ele e outros compatriotas se dividem quando chega a notícia de que a monarquia foi derrubada por um golpe comunista. 

O ano era 1974, auge da Guerra Fria, e entusiasmado com a possibilidade de, sendo um profissional altamente graduado, voltar à terra natal e ajudar na reconstrução social, Amberber assim resolve fazer, nem que para isso deixe para trás sua esposa alemã e seu filho recém-nascido.

Mas com pouco tempo trabalhado para o regime do Derg (assim era denominado o comitê central que regia a Etiópia socialista), ele presencia barbaridades ainda piores do que as do regime de Hailé Selassié. 

Usado como fantoche político, Amberber se questiona se deveria ainda cultivar sua devoção filial à sua posição ideológica, pois agora é chefe de família e testemunha de que o sonho de uma sociedade igualitária na Etiópia vai morrendo dia após dia.

TEZA venceu o Festival Panafricano de Filme e Televisão de 2009.

DE 0 A 10 = NOTA 10!

O filme se inicia com Amberber já sexagenário, arcando com as consequências de suas escolhas.

Investindo em diversos flashbacks, TEZA, que significa "neblina da manhã" no idioma amárico, mostra com decisiva crueza a realidade da Etiópia antes, durante e depois do período do Derg, que foi responsável, entre outras coisas, pela política de extermínio em massa por meio da fome, que criou dentro do país bolsões populacionais em áreas não cultiváveis, para onde os opositores do regime eram deportados, atitude que futuramente despertou a solidariedade das nações mais ricas em tentar ajudar a Etiópia, onde We Are The World (lembram?) era a canção pano-de-fundo para a campanha.

Cenas dos rituais da igreja ortodoxa etíope são mostradas, o que abrilhanta ainda mais o enredo.

Hailé Selassié morreu poucos dias após o golpe. Investigações recentes comprovaram que ele foi asfixiado enquanto dormia, o que encerrou quase 3.000 anos ininterruptos (!) de monarquia etíope, que entre seus representantes teve a famigerada Rainha de Sabá, uma das esposas do bíblico rei Salomão.

Poucos filmes administram um contexto histórico tão rico como esse, o que me alimentou um sonho já existente, o de um dia conhecer de perto a gloriosa Etiópia.

Trailer em inglês. 


quinta-feira, 27 de agosto de 2015

DESDE QUE OTAR PARTIU...


Existe uma Geórgia que não é aquele Estado norte-americano, no qual fica a cidade de Atlanta e de onde vez por outra surgem filmes que abordam o passado escravocrata dos EUA.

Falo da ex-república soviética da Geórgia, um belíssimo país, dono de uma das mais lindas bandeiras nacionais (ao lado), que foi um grande império na Idade Média e hoje tenta se manter, meio que precariamente, após o passado comunista.

É de lá que vem a fábula de hoje, chamada DESDE QUE OTAR PARTIU... (Depuis qu'Otar est parti... - Geórgia, França Bélgica/2003)

Tbilisi, capital do país. Marina, uma ex-engenheira que trabalha no mergado de pulgas da cidade, vive num apartamento com sua filha, Ada, uma estudante universitária, e sua idosa mãe Eka.

Eka só tem olhos para Otar, seu filho médico que partiu para Paris, onde trabalha como taxista, já que na Geórgia a crise econômica está em franca ascensão.

Marina, naturalmente, tem ciúmes desta relação, o que faz com que frequentemente entre em choque com a mãe pelas mínimas coisas que conversam - desde política a gostos musicais.

Ada tenta ficar alheia ao conflito, mas curiosamente ela é o esteio entre Eka e Marina, tratando sua mãe e sua avó com muita ternura.

Otar costuma mandar cartas a Eka, sempre junto com uma pequena soma de dinheiro.

Um dia, as cartas param de chegar sem qualquer razão, ocasião em que Marina e Ada criam diversas situações para preservar Eka, que concentrou no seu filho suas esperanças no futuro que ainda lhe resta.

Grande Prêmio da Semana da Crítica do Festival de Cannes de 2003.

DE 0 A 10 = NOTA 9

Curioso ver que parte dos diálogos é em francês, o que se justifica pela ligação afetiva que os antepassados da família possui com a França, aliado ao fato de a Geórgia ser membro observador da Francofonia, uma região geográfica que abrange todo o planeta e engloba os países francoparlantes (a Geórgia não fala francês, lembremos, mas sim georgiano e, como língua veicular, o russo).

O filme serve, não tanto involuntariamente, como uma vitrine para se conhecer como foi o processo de transição das repúblicas socialistas soviéticas para nações capitalistas.

As três mulheres encarnam toda uma geração de georgianos que tentava se acostumar a um mundo completamente novo, ao mesmo tempo em que a nostalgia da ex-URSS costumava bater à porta.

Nesta cativante história, uma valiosa reflexão sobre os reais valores da vida tem lugar, sendo a dinâmica família o axioma de toda esta análise.

Trailer deste maravilhoso trabalho, em inglês.


segunda-feira, 24 de agosto de 2015

O OPERÁRIO

Faz um ano que Trevor não dorme.

Sim, você leu bem: o protagonista de O OPERÁRIO (The Machinist - Espanha/2004)  não sabe o que é uma cama há um ano. 

Passa as noites em claro, vendo TV, lendo, limpando o apartamento em que vive sozinho. Por vezes sai de madrugada para tomar um cafezinho no aeroporto da cidade, onde sempre conversa com a garçonete Maria, ou de vez em quando recebe em casa Stevie, uma prostituta que termina se tornando sua amiga.

Mas com o tempo Trevor vai definhando, virando uma esquálida figura que mal se sustenta em pé, tamanha é a deterioração de seu estado físico.

Um dia, começam a surgir mensagens estranhas em seu apartamento, escritas em pedaços de papel que aparecem afixados na geladeira ou no banheiro, as quais Trevor tem plena certeza de que não foi ele quem escreveu.


Não bastassem essas intrigantes ocorrências, ele conhece Ivan no seu local de trabalho, uma metalúrgica. 

O problema é que ninguém ali jamais viu ou ouvir falar de nenhum Ivan, o qual insiste em dizer a Trevor que trabalha na mesma linha de produção que ele.

Será que seu estado mental começou a ser afetado pela insônia? Haveria uma conspiração individual ou conjunta para enlouquecê-lo? E por que, por mais que tente, Trevor não prega os olhos uma única noite?

Fique à vontade para desvendar este mistério.


DE 0 A 10 = NOTA 8,5

Christian Bale, que interpreta Trevor, teve de perder 30 kg para incorporar o personagem, chegando a pesar 54 kg, depois de um rigoroso regime acompanhado por nutricionistas.

A história se passa na Califórnia, embora as filmagens tenham sido em Barcelona, na Espanha.

Um elaborado thriller psicológico, que para os amantes do gênero, como eu, é super recomendável.

Vamos ver o trailer?




quinta-feira, 20 de agosto de 2015

4 MESES, 3 SEMANAS E 2 DIAS


Era uma vez um governante que percebeu que seu país estava despovoado e acreditava que se as famílias crescessem exponencialmente haveria mais chances de a nação ser próspera.

Assim, ele determinou que as mulheres não poderiam usar métodos contraceptivos, instituiu impostos para famílias com poucos filhos e premiações para as mães com mais de cinco crianças. Quem fosse pega tentando abortar e/ou colaborando com um aborto era invariavelmente detido e condenado a muitos anos de prisão.

Parece insólito, não? Mas tudo isso realmente aconteceu.

"A Terceira Metade da Tela" visita a Romênia para mostrar melhor esta história, porém sem se deter muito na veia política da coisa, mostrando um episódio fictício que ilustra bem um período o qual quase todos os romenos fazem questão de esquecer.

4 MESES, 3 SEMANAS E 2 DIAS  (4 luni, 3 săptămâni şi 2 zile - Romênia/2007) se passa no ano de 1987, pouco tempo antes de o regime comunista cair de podre em quase todo o Leste Europeu.

Gabitsa e Otilia são duas estudantes universitárias vindas do interior e dividem um quarto no alojamento da sua faculdade em Bucareste. Gabitsa engravidou sem desejar, e pede ajuda a Otilia para que, juntas, encontrem um médico para realizar um aborto clandestino.


Graças à sugestão de uma conhecida, elas chegam a Bebe, um homem estranho, que realiza o procedimento que Gabitsa quer fazer. 

As amigas alugam um quarto num hotel para executar o plano, e Otilia, para ajudar Gabitsa, tem que negociar a cirurgia com Bebe, que declara que só faz o aborto se a gravidez for de até três meses, o que não é o caso. 

E é sob a sombra da polícia, da intransigência de Bebe e da desconfiança do seu namorado e dos funcionários do hotel que Otilia tenta livrar Gabitsa de complicações que a situação em que está envolvida pode acarretar.

Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2007.

DE 0 A 10 = NOTA 9

Nicolae Ceausescu governou a Romênia entre os anos de 1965 a 1989.

Entre suas tresloucadas decisões, ele anunciou a proibição do aborto e prisão para todos os envolvidos, vez que queria que a população do país dobrasse no intervalo de alguns anos. 

Abortos clandestinos grassavam país afora, num mercado negro de arriscadas cirurgias onde muitas mulheres preferiram morrer do que serem pegas pela Securitate, a feroz polícia política do regime.  

Se há algo de humano neste impactante filme, seria apenas a fidelidade canina que Otilia possui para com Gabitsa, o que a faz se submeter a situações repulsivas para socorrer a amiga.

Todo o resto, sem dúvida, é um ciranda de degradação humana, algo que, guardada as devidas proporções que o delicado tema do aborto comporta, põe em xeque se valeria a pena uma criança vir ao mundo para viver numa sociedade tão avessa à solidariedade mútua.

Sem qualquer trilha sonora (não que eu lembre), a música bem que poderia ser o sincopado bater dos corações dos envolvidos na trama, pessoas que, sobrevivendo debaixo de um absurdo sistema ideológico como aquele, se barbarizaram de forma inacreditável.

Segue o trailer.


segunda-feira, 17 de agosto de 2015

MINHA MÃE É UMA SEREIA

Por que filmes ambientados nos anos 60 continuam a agradar?

Cada um tem seu palpite, mas como ponto de interseção haverá a alegação de que poucas épocas foram tão musicais na cinematografia, ainda que os filmes não sejam musicais em si.

MINHA MÃE É UMA SEREIA (Mermaids - EUA/1990) não foi produzido naquela década, mas a história é movida a uma trilha sonora que trata de fazer entrar na mente e no coração, mesmo que por osmose, o roteiro pretendido.

Como mais um indicativo desta melodiosa resenha, temos como protagonista Cher, multiartista que há anos passeia pelo teatro e pelos estúdios de cinema e música, obtendo sucesso em quase tudo o que faz (o que não é exceção neste filme).

Ela encarna Rachel Flax, uma avançadíssima mãe solteira que tem duas filhas no no mínimo curiosas: Charlotte (Winona Ryder, no seu grau máximo de beleza) e Kate (Christina Ricci, no seu primeiro papel no cinema). 

Charlotte quer ser freira a todo custo (e sua família é judia...), mas se divide entre orações e desejos proibidos por um rapaz que dirige o ônibus escolar - além da vontade de conhecer seu pai biológico. Já Kate sonha em ser nadadora, ou no mínimo campeã de apneia subaquática, modalidade que ela treina incessantemente na banheira de casa.

Rachel tem o costume de mudar de cidade cada vez que se mete em encrencas, todas advindas de relacionamentos amorosos complicados. 

Apontando ao acaso no mapa dos EUA, a família se muda para um pequeno porto em Massachussetts, onde todo o enredo se passa.

É claramente perceptível que uma família tão incomum não chamaria a atenção dos moradores, entre eles o comerciante Lou, por quem Rachel se apaixona.

E é envolvendo a paixão cada vez mais sólida entre os dois, a ambivalência mental de Charlotte e as peripécias de Kate dentro d´água que temos um filme memorável. 

Winona Ryder foi indicada ao Globo de Ouro de Melhor Atriz Coadjuvante por seu papel neste filme.

DE 0 A 10 = NOTA 9

Abordando desde o assassinato de John Kennedy a uma introdução à teologia cristã, este filme diverte e emociona.

É um deleite ver duas excelentes atrizes (e protótipos da beleza armênia - Cher - e judia - Winona) desempenhando um trabalho que discute as mágoas familiares, o abandono, a paternidade etc, sem ser lacrimoso.

Pelo contrário: MINHA MÃE É UMA SEREIA é a atestação mais firme de que crescer (fisica e psicologicamente) é um ônus tão engraçado quanto dramático.

Clipe da canção tema do filme, interpretada por Cher, o que inclui algumas cenas.   


quinta-feira, 13 de agosto de 2015

ZONA DE RISCO

Quando a Coreia do Sul resolveu marcar seu território no mapa da cinematografia, o fez com um apetite insaciável.

Oldboy, Mother e Poesia, entre outros, são exemplos de premiadas produções ali feitas, sendo amostras dos mais conhecidos filmes de uma nova escola do cinema, que possui um amplo leque de temáticas, mas praticamente todas elas trazidas à grande tela por meio de roteiros sóbrios e caracterizados pela dramaticidade mais crua possível (até mesmo um pouco exagerada, frequentemente).

No entanto, por uma ironia de conceituação ainda nebulosa, não existem muitas produções que abordem um dos aspectos mais propalados na inteligência universal quando o assunto é Coreia: a profunda divisão ideológica - e geográfica - que este país ainda vivencia.

Temos então as Coreias do Norte e do Sul. A primeira, comunista; a segunda capitalista. Sim, estamos perante a última fronteira explícita da Guerra Fria, que volta e meia chega aos noticiários na pessoa de Kim Jong Un, o herdeiro da dinastia comunista que governa a Coreia do Norte e insiste em afirmar sua superioridade bélica, ameaçando fritar atomicamente seu vizinho-irmão do Sul, os EUA e quem mais se meter no seu trajeto.

Boas razões, então, para assistirmos a ZONA DE RISCO (JSA/Gongdonggyeongbiguyeok jeieseuei - Coreia do Sul/2000).

O filme narra um incidente noturno na fronteira entre os dois países, onde o sargento sul-coreano Lee sai ferido após uma troca de tiro em que dois soldados da Coreia do Norte morrem. 


Na tentativa de esclarecer logo o caso e pôr fim ao crescente clamor por uma guerra total (naquela região do mundo, praticamente basta um soldado sacudir uma pedra na cabeça de um oponente para tal frenesi ser detonado), o exército da Coreia do Sul inicia as investigações unilateralmente.

Na contagem das balas que perfuraram os corpos de todos os envolvidos - vivos e mortos - e das que ainda restaram no armamento presente, a conta não fecha, pois uma bala a mais é encontrada.

Suspeitando-se de que terceiras pessoas estariam no local no dia e na hora do tiroteio, uma comissão independente de investigação, formada por membros suíços e suecos (nações beligerantemente neutras em qualquer instância), assume o inquérito, levando-os a descobrir, passo a passo, que muito mais gente está envolvida no episódio e cujos interesses não são tão claros.

Nomeado para o Urso de ouro do Festival de Berlim de 2001.


DE 0 A 10 = 8,5

Trama muito bem elaborada e eletrizante.

A fotografia tem seus momentos poéticos, refletindo o sentimento de alguns dos personagens, os quais embora comprometidos no esforço de guerra, sonham com a reunificação da pátria.

O trabalho de montagem do roteiro deve ter sido muito trabalhoso, pois a cronologia parece meio dispersa de início, mas não há nada que venha a comprometer a trama em si.

Concernente a se entender as doutrinações políticas atreladas ao tema, é uma ótima oportunidade para tal objetivo.

Por fim, a sigla JSA, que aparece no título original do filme, é o acrônimo em inglês para Joint Security Area, que é como se denomina um setor da Zona Desmilitarizada, que abrange por completo a fronteira entre as duas Coreias. 

Temos o trailer em espanhol.


segunda-feira, 10 de agosto de 2015

PERSÉPOLIS


O que tem a ver a República Islâmica do Irã com desenhos animados?

Se levarmos em consideração PERSÉPOLIS (Persepolis - França/2008), muita coisa.

Foi por meio deste recurso que Marjane Satrapi, no seu ofício de diretora, realizou um trabalho autobiográfico e mostrou ao mundo um panorama nem tanto desconhecido do seu país de nascimento (hoje ela reside na França), apenas tornando temas tão sérios e intrínsecos à história daquela vetusta nação mais disponível para o grande público.

A trama é centrada na história da pequena Marjane, uma menina que cresce numa família de classe média iraniana antes da Revolução Islâmica de 1979, sonhando em ser uma profeta de Deus e mudar o mundo. 

Ser classe média no Irã, naquela época, em tese, significava estar alinhado com o governo do xá Reza Pahlevi, que ocidentalizou o país e aboliu instituições que representavam, na sua ótica. um atraso à modernização, o que foi feito muitas vezes de forma arbitrária.

Por esta razão, muitos cidadãos medianos, ou mesmo ricos, não gostavam de Reza Pahlevi, que na hora de descer o sarrafo não poupava nem que havia sido seu aliado, realidade que tocou impiedosamente o lar de Marjane. 

De logo, ela cresce num ambiente onde o xá é tido como um mandatário tirano, o que fomenta mais ainda o desejo da pequena garota em transformar o planeta.


Com a derrubada do xá, o cotidiano da família muda, junto com o de todas as outras famílias iranianas. Para pior ou para melhor, de acordo com a ideologia que cada um segue. Todavia, todos estão esperançosos por um governo que valorize a cultura persa e rompa com o contexto de injustiça social onipresente.

Os eventos narrados a partir daí - o rompimento com os EUA, a guerra Irã x Iraque, o recrudescimento do fundamentalismo religioso - são disposto de forma linear, e Marjane oscila entre Irã e Europa, refletindo o dilema de muitos de seus compatriotas, que tiveram de optar pelo exílio, mesmo que a contragosto, para não se curvar ao severo regime político estabelecido após a Revolução de 1979.

Marjane, apesar de viver a frustração coletiva de ver um novo governo que piorou ainda mais a situação do país, alimenta continuamente sua veia revolucionária, se insurgindo contra tudo o que diz respeito ao atual quadro social. 

Prêmio do Júri do Festival de Cannes de 2007.

DE 0 A 10 = NOTA 9


Creio não existir outra maneira mais descontraída de se conhecer tão profundamente a história recente do Irã dentro do campo da Sétima Arte.

É evidente que está à disposição da plateia filmes como Argo ou Nunca Sem Minha Filha - estes transmissores da visão ocidental do assunto - além do variadíssimo acervo de filmes iranianos - muito mais intimistas e quase todos muito bons - sem contar os diversos documentários que abundam na web.

Porém, PERSÉPOLIS, que foi o nome da capital do Império Aquemênida, que reinou no que hoje é território iraniano e foi desmantelado por Alexandre, o Grande, é surpreendente, é divertido.

É único em sua espécie.

Trailer em espanhol e filme completo em português.





quinta-feira, 6 de agosto de 2015

BÁRBARA


Para o riquíssimo contexto que a divisão ideológica a qual a Alemanha viveu na Guerra Fria sugere, não temos visto a Sétima Arte exibir muitos frutos que retratem este apaixonante assunto - pelo menos aqui no Brasil não temos uma variedade sobre isso.

BARBARA (Barbara - Alemanha/2012) traz um alento àqueles que buscam entender com razoável exatidão como a República Democrática Alemã (RDA), em sua efêmera existência como Estado, tratava seus cidadãos, reforçando a real necessidade de os alemães entenderem a si mesmos.

E Barbara é uma médica, lá pelo início dos anos 80, lotada em Berlim Oriental, a capital da RDA, cidade na qual não permanece por muito tempo.

Em razão de ter tentado um visto para partir do país (o que, em se tratando de profissionais gabaritados, como é o caso de Barbara, não era algo muito bem visto), ela recebe como punição uma transferência a trabalho para uma cidadezinha afastada, na costa do Mar Báltico.

Visivelmente contrariada - sentimento que parece que ela propositalmente não faz a menor questão de ocultar - lida com todos ao seu redor de forma, digamos, profissional, um eufemismo para um comportamento arrogante. Seja com superiores, inferiores, vizinhos, pacientes, Barbara destila rancor...

Paralelamente, é vigiada pela Stasi (polícia política da RDA), que a submete a revistas-surpresa humilhantes, o que não a impede de ainda manter contato com seu namorado oculto, que de vez em quando visita furtivamente a vila onde vive Barbara, se encontrando com ela nos bosques ou em praias desoladas. Ele a ajuda, por meio de pequenas somas de dinheiro e mapas rabiscados em pedaços de papel, a elaborar um plano de fuga via mar.

Mas sua autodefesa começa a ser minada quando ela conhece Stella, uma jovem problemática, ingressa num reformatório para doutrinação política e que sofre abusos de diversas naturezas. E empenhada em ajudar a garota, ao mesmo tempo em que um colega de profissão insiste em conhecê-la melhor, Barbara passa a compreender que sua presença naquele lugar não é acidental.

Escolhido para representar a Alemanha no Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2013, tendo ganhado o Leão de Prata de Melhor Direção no Festival de Berlim daquele mesmo ano.


DE 0 A 10 = NOTA 9

O processo de descoberta do alter ego que Barbara passa é lento, mas não resvala numa maçante reflexão sem sentido sobre o papel dela no mundo ao seu derredor.

Ela reluta em aceitar os fatos que vão surgindo em sua vida de ostracismo, e esta resistência torna o filme interessante, na medida em que quanto mais Barbara tenta afirmar as convicções que a nortearam por toda vida, mais ela percebe que seu maior algoz não é o regime político de seu país, mas seu próprio ser.

Uma boa fotografia, um bom enredo, enfim, um bom filme.

Ainda para ser descoberto por muita gente.

Trailer.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

A MENINA DA FÁBRICA DE FÓSFOROS

Desde a adolescência nutro uma paixão enorme pela Finlândia.

E é de lá que vem a resenha de hoje, sobre um filme que passa na tangente de instituições magníficas daquele país magnífico - a arquitetura moderna, o premiado programa de bem-estar social, o melhor índice de educação pré-universitária, o clima, os doces, a belíssima e difícil língua finlandesa, o design industrial, a música folclórica.

Grande expoente da Sétima Arte da "Terra dos Mil Lagos", Aki Kaurismäki, numa de suas primeiras obras, presenteou o mundo com uma visão intrigante de sua terra natal, na pessoa de uma controversa garota operária.

Em A MENINA DA FÁBRICA DE FÓSFOROS (Tulitikkutehtaan tyttö - Finlândia/1990), Iris (interpretada pela competente Kati Outinen), trabalha numa linha de produção numa fábrica de fósforos, vivendo uma rotina espartana e milimetricamente cronometrada.

Sai de casa, trabalha, volta para casa, apronta o jantar da família, lava a louça, vai se deitar. 

Nos sábados à noite, frequenta bailes insípidos, opção escolhida a fim de evitar se quedar em casa, na companhia de seus taciturnos pais.

Em determinado momento, sua monótona vida é sacudida por um relacionamento com Arne, um homem sem intenções reais definidas e cuja impessoalidade irá afetar a melancólica calma em que Iris, até então, estava imersa.

A MENINA DA FÁBRICA DE FÓSFOROS fecha a premiada "Trilogia Proletária" de Aki Kaurismäki, precedido por Sombras no Paraíso e Ariel.       

DE 0 A 10 = NOTA 9

Se não fosse um filme dramático, com um toque muito sutil de humor negro, A MENINA DA FÁBRICA DE FÓSFOROS bem que poderia ser um filme de terror.

Explico.

Não necessariamente tentando expor a baixa densidade demográfica finlandesa, a primeira dicção humana ocorre cerca de sete minutos depois de iniciado o filme (e mesmo assim por meio de um boletim de notícias na TV), malgrado o fato de que elementos criados pelo homem - e vários exemplares desta espécie - habitam a paisagem da película nos minutos antecedentes.

E me detenho um pouco mais neste prólogo: a primeira cena mostra com detalhes o processo de manufatura de fósforos, desde o corte da madeira no tronco original até o seu empacotamento, onde máquinas enlouquecidas, numa sinfonia monocórdia, transmitem um sentimento alienante que se perpetrará por todo o resto da trama.

Neste trabalho, a impressão da nossa patente falência como ser social não fica no campo da impressão, o que se acentua na observância contínua da trajetória da absorta Iris em meio a ícones da modernidade sem expressar o menor desejo de interagir com nenhum deles, ao mesmo tempo em que esse estranho mundo que a comporta igualmente não se apercebe da sua existência, num exercício inconsciente de negação mútua, que hoje se traduz em cenas tristes, mas reais, como uma que recentemente testemunhei numa noite, numa pracinha de uma cidade do interior, apinhada de gente, onde o silêncio era sepulcral, pois quase todos estavam concentrados em seus aparelhos celulares, dedos frenéticos, quiçá buscando Finlândias melhores para si (embora úteis, que me perdoem os avanços tecnológicos nestas horas).  

Como se Nighthawks* (ao lado) ganhasse vida, em que todos estão ali, mas ignoram não só sua autoridade presencial como também a auto-clausura que seus iguais suportam, até mesmo os contatos físicos são angustiantes, gélidos, protocolares.

Todavia, em que pese estas linhas, afirmo piamente que é um filme maravilhoso, que mostra quão grande é a solidão humana, mas que nos leva a enxergar este vetor psicológico de maneira despudorada, quem sabe combativa, onde queremos pegar Iris pela mão e a arrancarmos não só das ruas de Helsinki, mas dela mesma.

A cena abaixo é um ensaio idílico nesta tragicomédia urbana, em que a letra da canção Satumaa (País dos Sonhos) - um tango finlandês! - manifesta o desejo de Iris, de outros finlandeses e muitos nórdicos mundo afora - incluindo-se alguns nem tão nórdicos, dependurados na Linha do Equador...

* Famosa tela de Edward Hopper (1882-1967), pintor realista norte-americano, conhecido por retratar o distanciamento entre os homens e a desconexão destes com a "vitoriosa" sociedade capitalista que criaram, o que para muitos é uma crítica ao "sonho americano".