sábado, 30 de maio de 2015

A FEITICEIRA DA GUERRA

A humanidade nunca pagará a dívida moral que possui para com o continente africano. E essa verdade se torna superlativa quando nos deparamos com a história de Komona.



A África foi retalhada entre as potências europeias desde o século XVI, servindo de fornecedor de mão-de-obra escrava e matéria-prima para aquelas nações. Durante muitíssimo tempo se seguiu esta usurpação, até que em meados do século XX se iniciou o processo de descolonização, quando as possessões, uma após a outra, foram conquistando a independência.

O que parecia ser uma solução se traduziu na continuação daquele martírio. Quando dividiram o continente, os europeus não se preocuparam em respeitar as fronteiras tribais, às vezes agrupando num mesmo território clãs mortalmente inimigos, enquanto que um mesmo povo poderia restar separado por dois ou até três países distintos. 

Assim, temos a Nigéria, com dezenas de etnias dentro de si, algumas rivais juradas. Por outro lado, tribos como os tutsis ficaram espalhadas entre Ruanda, Burundi e Tanzânia. 

Além disso, os ex-donos do pedaço foram embora sem deixar a mínima infraestrutura para os nativos começarem uma vida digna sob a emancipação política.

O caldeirão em ebulição que foi tampado à força por anos, com a saída dos metropolitanos, hoje explode pelos lados. 

E o que a citada Komona tem a ver com isso? 

Tudo.

Em A FEITICEIRA DA GUERRA (Rebelle - Canadá/2012), Komona é uma jovem de seus 13 anos, que vive com os pais tranquilamente, em algum lugar da beligerante África Subsaariana (insuspeitadamente, parece ser na República Democrática do Congo, país que ostentou o pior IDH do mundo em 2014, quer dizer, um dos cantos mais miseráveis do planeta, mas ao omitir o paradeiro desta história, o diretor Kim Nguyen procurou reforçar a ideia de que a realidade que o filme transmite é transnacional, o que foi, em minha opinião, uma escolha acertada).


Tudo está em paz, até que um grupo de rebeldes invade a aldeia, massacra vários adultos e sequestra os jovens e adolescentes para serem usados como soldados-mirins, sendo que os do sexo feminino, invariavelmente, servem de escravos sexuais. O batismo de fogo de Komona, durante esta abrupta mudança de vida, é particularmente cruel.

Já embrenhada na selva com a guerrilha, obrigada a beber a seiva de uma espécie de árvore, ela sofre de alucinações, manifestação esta que é encarada pelos comandantes como um poder sobrenatural inerente à menina, que passa a ter o status de feiticeira, o que, curiosamente, a poupa de atrocidades maiores.


Mas a situação de Komona não permanece confortável - afinal, ela está no meio de uma guerra, e ao se aproximar de um jovem albino conhecido como O Mago, seu destino se torna uma incógnita.

Vencedor do Urso de Prata de Melhor Atriz no Festival de Berlim de 2012.

DE 0 A 10 = NOTA 9

Desnecessário pontuar que o filme é muito realista, e sem qualquer anestésico expõe este universo paralelo ao qual os não-africanos viraram as costas.

A sensação de que as intermináveis guerras tribais são um caso perdido, infelizmente, ganha todo combustível nesta tremenda experiência cinematográfica.

Mas a obra tem seus lampejos de beleza, sobretudo se contarmos com o fato de que a relação entre uma alegada feiticeira e um suposto mago tem uma força imaterial, o que não requer nenhuma seiva de árvore nem qualquer mágica.

A trilha sonora, assinada pelo angolano Artur Nunes e outros, é um espetáculo à parte.

Trailer logo abaixo.

  




quinta-feira, 28 de maio de 2015

CURTINDO A VIDA ADOIDADO

Nos anos 80, o cinema americano se empenhou em disseminar o American way of  life mundo afora, influenciando multidões de jovens - e não apenas eles.

Muitos filmes e suas eventuais sequências, como Rambo, Braddock, Um Tira da Pesada e congêneres, que hoje são saudosos ícones da época, tiveram o propósito de vender a imagem dos EUA como país dos invencíveis, dos bem-sucedidos e descolados.

De algum modo, deu certo. E ao comentar CURTINDO A VIDA ADOIDADO (Ferris Bueller´s Day Off - EUA/1986), este imperativo se torna maiúsculo.

Certo dia, Ferris Bueller, alegando estar adoentado, resolve matar aula. Leva junto a sua namorada e o aloprado irmão desta para um dia inteiro de zoação em Chicago.

Ao mesmo tempo, o diretor da escola e a invejosa irmã de Ferris, cada qual no seu quadrado, tentam pegá-lo no flagra...

DE 0 A 10 = NOTA 9.

Certamente eu não daria uma nota tão elevada na época em que eu vi este filme pela primeira vez.

O que era então mais um besteirol americano hoje se tornou cult, e muitos da minha geração vão se lembrar de como queríamos ser (e agir) como Ferris, que naquele período - fins da década de 80 - representava o supra-sumo da transgressão moral para nós, pobres nerds embrionários (matar aula era um tabu para muitos, ao menos no colégio onde estudei).

A irresponsabilidade de Ferris Bueller como a atitude mais responsável que deveríamos tomar hoje, diante do que o mundo se tornou de lá para cá.

Posto minha cena favorita - e não apenas porque se vê nela a tela "Nighthawks", obra de Edward Hopper, meu pintor favorito. Ainda que curtíssima, mostra os três personagens principais no museu, cada um à sua maneira, se entregando a eles mesmos. 



E não podia faltar a apoteótica cena da parada!



terça-feira, 26 de maio de 2015

PAISAGEM NA NEBLINA

Em comparação ao imenso legado humanista que a Grécia proporcionou ao mundo, o cinema grego, fora de suas fronteiras, é relativamente mais modesto e menos conhecido.


Entretanto, algumas obras têm ganhado destaque na crítica ao longo dos anos, e com a constante multiplicação das premiações internacionais, tem sido comum ver em alguma(s) categoria(s) filmes oriundos da terra de Zorba, O Grego.

Um dos seus cineastas mais aclamados foi Theo Angelopoulos (nome cuja grafia correta é Theo Angelópulos, mas vou utilizar a que todos mencionam, pois foi com a qual ele se consagrou), conhecido pelo seu cinema intimista, sua câmera que lentamente passeia no ambiente e sua maestria em mesclar elementos da história grega antiga e recente com fatos do cotidiano.

Um de seus primeiros trabalhos que foram laureados no estrangeiro é PAISAGEM NA NEBLINA (Topío stin omíchli - Grécia, França, Itália/1988).


No filme, dois irmãos fogem de casa, em algum lugar da Grécia, à procura do pai, que supostamente mora na Alemanha.


Durante a viagem, previsivelmente difícil, encaram situações que os fazem aprender mais sobre suas realidades, interna e externamente, num amadurecimento prematuro em meio a improváveis coadjuvantes.


Vencedor do Leão de Prata do Festival de Veneza de 1988 e escolhido o Melhor Filme Europeu de 1989.

DE 0 A 10 = NOTA 10!

Se existe algo a dizer em defesa de PAISAGEM NA NEBLINA é que não há propaganda enganosa quanto ao pretenso final feliz que a sinopse presumivelmente assinala a quem se destina a assisti-lo - já nos primeiros minutos de filme se fica sabendo que não existe pai algum. 

Portanto, melhor se deter a detalhes que, via de regra, teriam uma influência secundária.

Fazendo isso, uma experiência única se revela à plateia. 


Angelopoulos investe na contemplação nos momentos mais cruciais desta fábula, ao invés de se entregar ao melodrama que o enredo, por si só, já traz (ainda que muito se dialogue por todo o filme).

O espectador exercita a imaginação em várias partes, como se fosse instigado a completar as rimas de uma poesia inacabada.

Se o silêncio pudesse gritar, seria, sim, neste filme.


Lindo.


Simplesmente.

Abaixo, o trailer em espanhol.







AS FLORES DE KIRKUK

Os curdos são o maior povo sem nação no mundo.

São 40 milhões de pessoas espalhadas majoritariamente por quatro países: Irã, Iraque, Síria e Turquia. Em alguns lugares, são perseguidos; noutros, são tolerados e até possuem certa autonomia. Mas, em última análise, não possuem um país para chamar de seu.

Tudo começou após a 2ª Guerra Mundial, quando as potências da época desenharam as fronteiras atuais do Oriente Médio. Na partição do bolo, surgiram a Jordânia, a Síria, o Iraque, o Irã, Israel.

Os curdos ficaram de fora do rateio, pois além de seu território não possuir muitos recursos naturais que interessassem, não havia consenso entre suas tribos sobre quem iria governar o país independente.

Resultado: o Curdistão foi engolido pelos países vizinhos, e até hoje os curdos penam por isso. Suprema injustiça, pois eles não são nem árabes, nem turcos, nem persas, além de falarem um idioma muito distinto de todos os seus vizinhos e terem costumes muito peculiares.

(Em tempo = Embora não seja ativista engajado, defendo irrestritamente a autodeterminação do Curdistão e a fundação de um Estado curdo soberano, e por isso posto como homenagem a bandeira curda e uma canção popular deles que muito me agrada). 




AS FLORES DE KIRKUK (I Fiori di Kirkuk/Golakani Kirkuk - Itália, Iraque/2010) traz certa luz a este tema inexplicavelmente escanteado da cinematografia mundial de mais evidência.

Najla é uma médica iraquiana, etnicamente árabe, que durante uma especialização em Roma volta a seu país de origem em busca do noivo, o curdo Sherko, que foi seu colega de faculdade na Itália.

Historicamente, ambos os povos não são muito amistosos entre si, o que não impede que Najla e Sherko nutram uma forte relação amorosa.

Mas o retorno da médica se dá exatamente na época em que o governo iraquiano (meados da década de 80) decide aplicar uma "solução final" aos curdos, tal qual os nazistas fizeram aos judeus: deportações, confinamentos em campos de concentração e prisões, assassinatos de líderes políticos e outras ações são tomadas pelo exército iraquiano em larga escala.

Najla se utiliza da profissão para, inspirada no exemplo de Sherko (que se tornou membro da resistência), ajudar na causa curda, o que faz com que ela entre em choque direto com sua família e superiores hierárquicos.

E como se a situação já não estivesse por demais embaralhada, um oficial do exército iraquiano se apaixona por Najla e passa a perseguir Sherko.

DE 0 A 10 = NOTA 9

O mérito-mor do filme é abordar um assunto que, como já foi dito, ainda é muito mal explorado na telona.

Os curdos têm sofrido por décadas debaixo de cada regime que os governa, chamando a atenção o tratamento que receberam durante o governo de Saddam Hussein, quando eles quase sumiram por completo do mapa do Iraque, o que esta obra em parte retrata.

Merecem mais visibilidade.

Najla encara o conflito com uma bravura que rivaliza com a do próprio Sherko, o que, malgrado o fato de a mesma amar um curdo, comprova que nem todos os iraquianos eram cegamente fiéis a Saddam e nem também apoiavam as atrocidades perpetradas contra aquela minoria.

O filtro do filme usa cores quentes, um tom marrom, quase ocre, o que acentua a aridez tanto da história quanto da fotografia.

Segue o trailer!




quarta-feira, 20 de maio de 2015

TREM DA VIDA


A Vida é Bela, ganhador do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 1998, que desbancou, entre outros, o brasileiro Central do Brasil, mostrou ao mundo uma outra perspectiva - e humorística! - de um assunto espinhoso: o Holocausto Judeu na 2ª Guerra Mundial.


Mas engana-se quem pensa ter sido este o único filme a ousar uma releitura divertida de um período tão nefasto da história da humanidade.

Entre outros que se aventuraram neste sentido, TREM DA VIDA (Train de Vie - França, Bélgica, Holanda/1998) é bem menos conhecido, mas igualmente encantador. 

Narra a história de um shtetl (povoado tradicional judeu) em algum país da Europa Oriental, em plena 2ª Grande Guerra. 


Tudo está em paz, até que surge o boato de que os nazistas irão deportar todos os habitantes para os campos de concentração. 

E em meio ao tumulto, o bobo da aldeia, Shlomo, sugere uma ideia mais do que original: os próprios habitantes do shtetl construirão um trem, fingindo uma deportação, alguns deles se passando por nazistas e outros por prisioneiros.



Como única solução que resta, assim se sucede. E tem início a uma série de situações inenarráveis.

Premiado pela crítica internacional no Festival  de Veneza de 1998.

DE 0 A 10 = NOTA 10!

Não entendo até hoje como este filme ainda é tão desconhecido por alguns cinéfilos. 

Uma obra-prima do cinema político e grande amostra do cáustico e racional humor judaico.

Não tem como ficar indiferente diante do enredo muito bem elaborado. 

Por trás do jogo de poderes, ideologias distintas e incertezas quanto ao futuro, um libelo à vida se revela.


Os personagens são marcantes, todos desempenhando muito bem o papel que lhes coube.

E o líder dos rabinos, que figura! 

Assisto diversas vezes seguidas e não me canso.

Abaixo, uma cena antológica: o duelo musical entre os judeus fugitivos e um grupo de ciganos, outro povo que historicamente sofreu barbaridades nas mãos dos nazistas.




TANGERINAS

Em minha opinião, a disputa pelo Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, neste ano de 2015, foi bem mais acirrada do que em anos anteriores. 

Meu favorito para ganhar a estatueta vinha da Rússia - Leviatã - e como segunda opção eu apostava no estoniano Tangerinas. Também captaram minhas atenções o polonês Ida e Timbuktu, da Mauritânia (!). Correndo por fora, Relatos Selvagens, da Argentina.

No final, deu Ida. Mas todos os filmes são dignos de nota, e quiçá de possíveis resenhas aqui na "Terceira Metade".

Mas hoje me concentro em Tangerinas.

Josef Stalin, durante o período em que esteve à frente da União Soviética (da década de 20 até sua morte, em 1953), bolou uma estratégia para governar melhor aquele país-quase-continente: mandou muitos (mesmo) russos morarem nas outras 14 repúblicas que compunham a então URSS, diluindo o componente autóctone de cada país satélite, e para embolar mais ainda a história toda, deportou não-russos para outros lugares bem longe de onde estavam.

Os objetivos eram: 1 - Diminuir o nacionalismo em cada república soviética, à medida em que seus nativos se viam cada vez mais espalhados pela vasta extensão territorial que se tinha; e 2 - Fortalecer a hegemonia da Rússia, maior e indiscutivelmente mais poderosa das 15 repúblicas da União Soviética, em todas as instâncias.

Deu-se a esta jogada geopolítica o apelido de "política do liquidificador".

Com o fim da URSS, em 1991, o liquidificador soviético explodiu. Guerras étnicas sacudiram e ainda sacodem aquele pedaço do planeta, onde chechenos se estapeiam com russos, os russos com os georgianos, estes com os abecásios, os armênios com os azeris e por aí vai. 

Questiona-se até onde Stalin não tinha a real intenção de tumultuar seu império se um dia o comunismo viesse a cair, o que efetivamente aconteceu. De toda sorte, este foi mais um de seus legados perversos, e até hoje ninguém sugere uma solução segura para os conflitos existentes.  

Feito este breve introito, fica mais fácil degustar as TANGERINAS (Mandariinid - Estônia/2013).

No filme, que se passa no ano de 1992, Ivo, um estoniano, descende de uma família que há décadas habita a Abecásia, província separatista da Geórgia, uma das ex-repúblicas soviéticas. Ivo cultiva tangerinas numa remota área rural quando a guerra estoura, querendo os abecásios a independência, querendo os georgianos o domínio sobre a Abecásia.


Certo dia, Ivo salva, ao mesmo tempo, dois inimigos bastante feridos: um georgiano e um mercenário checheno que luta a favor dos abecásios. Abriga-os em sua própria casa, cuidando da saúde de cada um deles. 

A convivência entre os personagens vai se inflamando cada vez mais, enquanto a guerra em si se aproxima do local em que estão, com consequências imprevisíveis.

Prêmio de melhor público no Festiva de Cinema de Varsóvia em 2013.

DE 0 A 10 = NOTA 9

Para se ter uma ideia de como se tratou de uma guerra complicada, quatro línguas diferentes são ouvidas no mesmo filme.

Nesta forte obra do cinema, se analisa quem são os vencedores e perdedores em uma guerra, seja ela qual for. E a resposta não tarda a vir: todos ganham e perdem ao mesmo tempo, pois dependendo do que intentamos ganhar, sacrificamos sem sentido muito  de nós mesmos.

As interpretações são poderosas. A fotografia, sem paralelos. A trilha sonora, fabulosa. 

E o final... assista para saber.

Abaixo, o trailer em espanhol.






domingo, 17 de maio de 2015

CARTA DE INTENÇÕES



Olá, queridos leitores!

Pensar em escrever sobre cinema hoje tem seus desafios, a depender do objetivo de quem o faça.

Num assunto onde já muito se tem registrado, paralelamente existe a certeza da inesgotabilidade que a própria matéria nos traz e que, poética e convenientemente, vem acompanhada de uma singela plaquinha, talvez em madeira carcomida e pintada com muito esmero, com os dizeres "Sempre cabe mais um".

E então entro na brincadeira.

Digamos que o mundo do cinema foi dividido em dois hemisférios: um pertencente aos assim denominados filmes comerciais, sucessos de público e bilheteria, blockbusters, entre outras patentes; e outro ocupado pelos "filmes de arte", rótulo intrigante pela sua redundância, porque se fazer cinema é exercer a Sétima Arte em essência primeira, como se conceber um filme que não é artístico em si mesmo?

Vivemos num país onde existe um exorcismo conceitual quando se discutem visões coexistentes dentro de um mesmo tema. Como assim? Para uma opinião se firmar, é imperioso neutralizar o que o/um ponto de vista dissonante apresenta. Muitas vezes, não há o menor interesse em se avaliar como aquela ideia oposta surgiu, o que ela de fato procura dizer, quais seus eventuais benefícios - caso hajam. Fenômeno comum em discussões políticas, religiosas, esportivas.

Tal estratagema não funciona muito bem no quesito 'cinema'. Dizer que filmes comerciais são ruins apenas porque visam lucro, ou que "filmes de arte" não se prestam a entreter porque obrigam a pensar em vez de relaxar a mente, são vereditos no mínimo equivocados.

E sim, não são poucos que pensam desta maneira, infelizmente, como se estivéssemos perante um Brasil x Argentina na grande tela, onde um empate é condição extraterrena. Como se fosse tabu declarar preferência por uma vertente cinematográfica e manter um "namorico" com outra tendência. Como se não se pudesse admitir que, em verdade, não há limites para se exercer o ofício da paixão por esta modalidade fascinante de comunicação de massa.

Saio desta peleja. Escolho uma outra metade.

A Terceira Metade da Tela.

Resolvo optar por escrever sobre filmes em geral, mas aqueles filmes que tanto comerciais quanto "artísticos" estão hoje na periferia da percepção coletiva. 

Filmes que, ainda que recentes, se empoeiram diante da velocidade com que o cinema se reinventa, quando mal tomamos fôlego de uma novidade e algo ainda mais novo já nos surpreende.

Filmes que em algum momento foram até bem analisados pela crítica especializada (onde, claro, não me encaixo), mas sobre os quais já não se ouve falar tanto por aí afora.

Filmes que amei, que vi, que revi, que vivi e que agora vou reviver.

Ademais, tenhamos em mente que História é fazer cinema, e Cinema é fazer história. E reconhecer esta simbiose é um dever supra-ideológico. 

Ou como desprezar trabalhos como Tulpan, a primeira grande produção do Cazaquistão pós-independência, que fez o país ser mais conhecido, país esse que, por diversas razões, muito raramente produz algum trabalho que ultrapassa suas fronteiras?

Como ignorar A Imagem que Falta, onde se retratou, entre outras coisas, a destruição da arte cinematográfica no Camboja por conta de um determinado regime político, onde o filme em questão é um grito desesperado contra o esquecimento da beleza da tela grande (ou, no caso citado, da ausência desta beleza)?

Ou ainda Yol, filme-denúncia dos anos de chumbo da Turquia, que antes de ganhar a Palma de Ouro do Festival de Cannes precisou que seu original fosse contrabandeado para fora do seu país?


Por estes e outros épicos (assim os conceituo), me destino a escrever sobre eles.

E o faço sobre a Terceira Metade da Tela.

Não pretendo aqui reinventar a roda, ousar uma crítica alternativa, mesmo porque algumas linhas poderão ter um quê de déjà-vu.

Somente intento expor como cada obra falou comigo, o que me trouxe à flor da pele da sentimentalidade, como percebi mudar o cosmos que me circunda com ao menos a lembrança a fala de um personagem, uma cena marcante, uma trilha sonora inspiradora...

Aposto até, quem sabe, numa catarse, em face do minimalismo de opinião que tem tomado certas rodas informais de discussão sobre o cinema atual.

E por meio desta carta de intenções, convido os interessados a vir comigo, se assim quiserem. 

Quer gostem do que vão ler, quer não, ficarei muito gratificado se ao menos lerem.

Mas se ainda assim não compartilharmos desta metade, já me sinto feliz por ela, de alguma forma, ter saído do campo da abstratividade.

Precisava que ela nascesse.

E agora chegou o momento. 

Muito obrigado a todos,

Geisel Ramos