quinta-feira, 30 de julho de 2015

LUZ SILENCIOSA

Sinopse do filme de hoje: pai de família bem casado trai a esposa e passa o resto do tempo se digladiando contra o sentimento de culpa gerado pelo ato.

Tem tudo para ser uma perda de tempo se dispor a ver uma trama do tipo, já que até mesmo folhetins novelescos podem manejar esse caso concreto de maneira mais permeante.

Mas LUZ SILENCIOSA (Stellet Licht - México, França, Holanda/2007) tem a força de um tornado, vez que puxa do solo o juízo comum e vertiginosamente convida o espectador a mergulhar no drama que a situação escancara, sem apelar para interpretações canastronas nem para um reles conteúdo moral com um quê de "ponto final", ou traduzindo melhor, sem permitir que quem o aprecia desça à terra sequer para respirar.

A fábula se passa no seio de uma comunidade menonita do México, num lugar onde o México não fala castelhano, nem come tacos e nem é moreno de sangue asteca. 

Vemos um grupamento humano fechado em si mesmo, com uma interpretação particular das Escrituras, falando um idioma impenetrável, sem nenhum dos ícones da modernidade (salvo tratores e carros populares, usados para a agricultura e eventuais emergências, respectivamente).

Ali, Johan vive com sua mulher Esther e seus cinco filhos. Tudo normal, até que Marianne aparece em sua vida...

Prêmio do Juri no Festival de Cannes de 2007.

DE 0 A 10 = NOTA 10!

As peculiaridades deste filme são muitas.

Talvez seja até agora o único filme falado em plattdüütsch, dialeto originado do alemão medieval e que ainda sobrevive graças a apenas poucos seres humanos que vivem em comunidades isoladas do mundo atual e que o falam cotidianamente, especialmente na Alemanha, México e Paraguai, onde há comunidades menonitas.

Esta doutrina surgiu como resultado direto da Reforma Protestante, poucos anos após Lutero propor aquela revisão dogmática, sendo talvez um dos segmentos que mais buscaram se ater ao Cristianismo nos moldes originais ao tentar suplantar os cânones vaticanistas. E com a descoberta do Novo Mundo, alguns dos seus seguidores aportaram no continente americano.

Guardam uma postura ultra-conservadora dos ditames cristãos, levando a sério a abolição das influências da modernidade, onde eletrodomésticos (ou mesmo eletricidade), certos tipos de vestimenta e leitura, música secular, entre outros, são completamente proibidos. Neste sentido, lembram bastante as comunidades Amish, estas mais conhecidas do público comum, inclusive por meio da cinematografia (A Testemunha, com Harrison Ford, é um claro exemplo).

Detalhe: todos os atores escolhidos para esta obra são membros de uma comunidade verdadeiramente menonita, nenhum deles atores profissionais! 

Alto lá! Se a história se passa numa coletividade religiosa, não haveria um subproduto proselitista no tratar da questão?

A resposta é não. 

Não estamos diante de um filme cabalmente "religioso", no qual normativas eclesiásticas irão nortear a crise existencial em que Johan se meteu. Claro, a bússola que o orienta na sua procura pela metanoia tem matiz essencialmente espiritual, todavia o interessante é que esse processo não se esgota numa mera releitura de versículos bíblicos (e surpreendentemente, isso sequer ocorre no filme), até porque Johan já conhecia muitíssimo bem o posicionamento divinal antes de cometer o deslize. 

Também não é um libelo à permissividade humanista, pois o conflito íntimo detonado pelo adultério é suficientemente esmagador para impedir Johan de levar a cabo qualquer plano de dissidência às instituições que ele sem querer submete a julgamento (família e Igreja). Não é uma instigação a um carpe diem!, digamos.

A discussão vai mais além.

Johan, com estes caminhos antagônicos diante dele, remete o espectador ao limiar da conceituação mais basilar do que vem a ser consciência ética, uma dimensão que deverá ser desimbuída de conotações religiosas, filosóficas e afins.

O silêncio, este o quiçá senhor protagonista do filme, pode até incomodar a plateia (falo sério, não o assista se estiver nem que esteja um pouquinho de nada cansado), mas é nas entranhas deste estado (meta)físico que Johan será Johan, apresentado à sua matéria-prima, entregue a seus instintos e ao deslinde da autocontemplação.    

A fotografia, ampla e sem horizontes delimitadores, ajuda a reforçar a metáfora pretendida pelo filme - mostrar o diminuto lugar do homem neste cosmos, ambiente em que seus dotes intelectuais e suas habilidades construídas a longo do tempo de nada servem ante a incerteza das consequências de suas atitudes.   

Como um cometa que passou e que nunca irá visitar este planeta, LUZ SILENCIOSA é uma experiência singular, que certamente não mais se repetirá.

Sem dúvida alguma, no que tange a filmes sobre a natureza humana, é um dos melhores que já assisti.

Vai aí o trailer em espanhol.


segunda-feira, 27 de julho de 2015

MARIA CHEIA DE GRAÇA

Uma das funções supostamente delegadas ao cinema de arte é apresentar tramas que fogem ao convencional e tratam de mostrar a realidade de diversos países fora do conhecido estereótipo que os acompanha no imaginário popular. 

E isso é muito louvável. 

Já pensou se ser americano fosse apenas perambular por ruas da Costa Leste ou Oeste, sob abastada ostentação? Ou se ser grego fosse somente viver quebrando pratos enquanto se dança a ciranda sirtaki? Imaginem ser brasileiro unicamente pelas instituições que nos fazem famosos lá fora - carnaval, futebol, praias ensolaradas - para não citar algumas evocações acerca de nós em malam partem... Deus nos proteja!

Resolvo fazer este aparte antes de iniciar a resenha de hoje pois não agirei no espírito contrário, já que será abordado um tema muito associado ao país de origem do filme em questão, assunto que o tornou mais conhecido internacionalmente, mas o faço com muita convicção de que, mesmo trabalhando com um lugar-comum ao panorama moderno da Colômbia, estarei a mostrar uma obra forte e densa.

MARIA CHEIA DE GRAÇA (María, llena eres de gracia - Colômbia, EUA/2004) mostra a protagonista título do filme, habitante de uma vila do interior colombiano, sem qualquer perspectiva de mudança de vida. 

Mata o tempo em bailes de rumba e num namoro enrolado com um chico, tudo para escapar da conflitosa dinâmica familiar que vive junto aos seus numerosos parentes e da asfixiante relação que trava com seu patrão, numa empresa de exportação de rosas.

Sob severa pressão por mais dinheiro para pôr no lar, seguindo uma proposta de um jovem que conhece numa festa, Maria ingressa numa empreitada assustadora - ela se propõe a servir de "mula", levando no interior de seu corpo cápsulas de cocaína para os EUA, viajando sozinha de avião, sob a promessa de receber muito dinheiro pelo serviço.

No interregno dos preparativos, ela conhece outras moças, veteranas na ponte aérea ou que estão embarcando pela primeira vez na jornada, como ela mesma.

Mas as semelhanças com suas companheiras recém-conhecidas param por aí. Maria não sabe, mas ela está grávida, e no momento em que descobre este fato toda a aventura toma um rumo imprevisível.

Catalina Sandino Moreno, que incorpora Maria, venceu o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Berlim, além de ter sido indicada ao mesmo prêmio no Oscar de 2005.

DE 0 A 10 = 9

Embora ligeiramente clicherista, o enredo surpreende.

Muitas vezes não é a tensão que toda a história gera em quem está assistindo o que dá a tônica para caracterizar este filme como destaque em sua linha (e ponha tensão nisso).

Há momentos em que os personagens desempenham o processo do tráfico de drogas com uma frieza quase profissional, como se já formatados para aquele tipo de coisa, e isso é um dos pontos mais desafiadores do filme.

Um retrato dos nossos dias, em que a vida humana é por vezes contabilizada abaixo de interesses individuais, quando não ilegais, sendo a dignidade que lhe cabia ignorada de maneira repulsiva tão frequentemente, atestação esta que se confunde com um subtítulo escolhido para esta obra: 

"Baseado em milhares de histórias reais" .

Trailer.



quinta-feira, 23 de julho de 2015

SANTA PACIÊNCIA

Mais um pouco de Isaque e Ismael.

SANTA PACIÊNCIA (The Infidel - Inglaterra/2012) resolve apimentar o arranca-rabo bíblico entre estes dois irmãos e cria uma história divertidíssima e bem insólita - se é que não foi passível de acontecer um dia.

Mahmud vive em paz com sua família em Londres, e sendo muçulmano não-praticante, supõe-se que todos os temas que tangem sua religião em relação às diversas outras crenças não o afetariam. 

Ledo engano.

Acidentalmente, ele descobre que foi posto para adoção assim que nasceu, e para completar a "tijolada" no seu juízo, sua ascendência é 100% judia! 

Sim, ele não é um Ismael; é um puríssimo Isaque.

Já cobrado para tomar partido em assunto que diz respeito à sua comunidade pelos seus amigos, especialmente em relação ao crescente enfrentamento ideológico com a coletividade judaica, Mahmud entra em parafuso.

Ele conta com a ajuda de um judeu apóstata para conhecer mais sobre os rituais daquela religião, tudo em completo segredo de sua esposa, filhos e de toda a irmandade muçulmana, tentando incorporar as tradições hebreias, o que ele faz de uma maneira desengonçada e inconsequente.

Mas até onde ele vai conseguir conviver com esta dualidade?

DE 0 A 10 = 8,5

SANTA PACIÊNCIA foi exibido em muitos países, incluindo alguns do mundo islâmico, como Irã, Catar e Arábia Saudita.

Na Índia, onde as comunidades hindus e muçulmanas nutrem uma secular rivalidade, foi produzida uma refilmagem deste trabalho, onde um hinduísta tradicional descobre que tem raízes islâmicas, sendo adotado por uma família religiosa hindu.

História bem interessante, pontuada com uma trilha sonora adequada para a situação, em parte assinada pelo paquistano-holandês Imran Khan.

Segue o trailer, além de uma cena que tem como fundo musical a ótima "Aaja ve Mahiya", de Imran Khan.



segunda-feira, 20 de julho de 2015

DEBITOCRACIA


Falar sobre a Grécia está muito em voga no momento, mas infelizmente não é por nenhum dos incontáveis atributos naturais ou humanos que aquele país detém.

Laboratório da política de austeridade, quintal da União Europeia, "patinho feio" da Eurozona, primeiro país desenvolvido a dar calote no FMI, tudo isso são alcunhas que a Moderna Hélade tem estampada em suas costas nos últimos anos.

DEBITOCRACIA (Hreokratía - Grécia/2011) não poderia ser mais recomendado para se entender esta nova fase na história desta terra milenar.

Produzido por dois jornalistas gregos, Katerina Kitidi e Aris Hatzistefanou, este documentário analisa a origem da dívida interna grega e os desdobramentos daí advindos, e de maneira sóbria, mas nem tanto parcial, responde a questões importantes, tais como:


  • Qual a origem da dívida grega?
  • Qual foi a participação dos governos que se sucederam ao longo dos anos no manejo desta dívida?
  • De quem é a responsabilidade da situação financeira tão caótica na atualidade?
  • O que pensam os mais tarimbados especialistas em União Europeia e Economia Mundial?
Qual o conceito de dívida odiosa?

Os gregos realmente têm de pagar pelos graves erros cometidos pelos seus representantes?

E o FMI, onde entra neste drama?

... entre outras perguntas cruciais.

DE 0 A 10 = NOTA 10!

Dou esta pontuação em virtude de ter sido até então o único trabalho que resolveu encarar o assunto em tela sem pudores.

Fica claro o esforço de parte dos políticos gregos e da mídia local em omitir dados sobre os desajustes financeiros que estavam ocorrendo sem que a população soubesse, fato este que se confirmou entre os anos de 2008 e 2009, revelando que estatísticas foram manipuladas para fazer com que a Grécia estivesse num patamar satisfatório de saúde econômica, no intuito de ingressar na Eurozona.

Um contexto histórico abrangente é citado no filme, para conectar o caso grego com outros que se passaram tempos antes, demonstrando que o endividamento excessivo não é ônus de apenas uma das partes, já que alguns credores têm extremo interesse em emprestar muito dinheiro a governos que gostam de torrá-lo, para depois forçá-los a pagar com acréscimos estratosféricos, barafunda na qual o cidadão comum é o lado mais penalizado da negociação.  

Documentário muito informativo, coeso e fácil de se compreender. 

Bom para estudantes e profissionais de Economia, Ciência Política e Relações Internacionais, assim como ao público afeito ao assunto.

Não vale a pena postar o trailer porque é uma indicação de filme muito direcionada. Vai o documentário inteiro, com legendas em português:


(PS - Resenha dedicada à memoria de Dimitris Christoulas, aposentado grego que, no ano de 2012, se suicidou em frente ao Parlamento, no centro de Atenas, em protesto contra as medidas draconianas que a economia nacional adotara, o que gradativamente lhe tirou o sustentáculo de uma vida digna.

Sua morte é considerada por muitos como "um crime de Estado". 

O mesmo deixou uma carta-manifesto de despedida, amplamente divulgada pela imprensa na época, cujo teor pode ser lido neste link: 

http://averdade.org.br/2012/04/aposentado-grego-se-mata-em-publico-e-deixa-nota-de-suicidio/)

quinta-feira, 16 de julho de 2015

LEVIATÃ

O cinema russo, uma de minhas escolas mais amadas, possui uma capacidade de se reinventar impressionante.

Ali surgiram alguns dos primeiros filmes de alcance mundial, ainda nas primeiras décadas do século XX, calcados na discussão política, uma problemática constante na época e que gerava os blockbusters de então. 

Neste circuito, um nome notável foi o de Serguei Eiseinstein, que produziu O Encouraçado Potemkin, grande ícone da Revolução Russa de 1917.

Quase cem anos depois, o fôlego do cinema russo permanece tão grande quanto a extensão das estepes daquele país-continente, e prova disso é LEVIATÃ (Leviafan - Rússia/2014).

Obra-prima contundente, que narra a saga de uma família que mora nos confins árticos do Mar de Barents, no Norte da Rússia, e que se vê oprimida pela implacável arbitrariedade dos poderes constituídos e das figuras de autoridade que os representam, na medida em que lutam pela  manutenção da propriedade em que vivem, altamente cobiçada.

Um advogado moscovita, aparentemente compadecido do drama, resolve patrocinar o chefe da família perante todos, entrando em atrito com todas as esferas, num tenso jogo de interesses que revela o pior lado de cada um dos personagens da trama, onde nem tudo parece se rtão idôneo quanto se mostra.

Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro de 2015.

DE 0 A 10 = NOTA 10!

LEVIATÃ foi minha preferência para ganhar o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro neste ano.

Uma perfeita coexistência do Leviatã descrito na narrativa bíblica do Livro de Jó ("poderias tu pescar o leviatã com linha e anzol, ou atar-lhe a língua com uma corda?") com a mesma criatura de caráter mitológico que inspirou Thomas Hobbes a teorizar acerca da figura do Estado em sua famosa obra homônima àquele monstro.

Em outras palavras, Igreja e Estado, além de outros elementos, constituindo uma força una na missão de ser o mecanismo coercitivo da sociedade.

Uma produção única, corajosa, que desce como um punhal até a medula da alma russa, retrato que igualmente se ajusta a muitos regimes hodiernos nominalmente "democráticos", em que toda as regras oficiais são rasgadas em prol dos interesses mais escusos.

A fotografia caiu bem em meu gosto, servindo de metáfora à frieza do enredo.

Teve sua exibição proibida na Rússia, sendo liberada somente depois de uma versão editada ser confeccionada.

Um filme talvez difícil de digerir, mas sem dúvida um opus que veio para ficar.

Trailer em português.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

UMA AMIZADE SEM FRONTEIRAS (Um tributo a Omar Sharif)

Nesta semana que passou, nos despedimos de um dos melhores atores de filmes clássicos e modernos, que encarnou personagens emblemáticos e foi pioneiro em sua arte, porque primeiro ator árabe a ganhar projeção no cinema.

Falo de OMAR SHARIF, nascido na cidade de Alexandria, no Egito, em 1932, o qual ficou internacionalmente conhecido como o protagonista de Doutor Jivago, trabalho que traz às telas o romance homônimo escrito por Boris Pasternak, além de atuar em Lawrence da Arábia, produção a qual é mais lembrada por ter tido Omar Sharif no elenco do que o próprio ator principal, Peter O´Toole, tanto que o nosso homenageado quase levou o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante naquele ano.

É claro que Omar Sharif não se resume a estes dois épicos, pois atuou em dezenas de filmes para o cinema e a TV, e é sobre menos famoso, porém tão marcante quanto os demais, que "A Terceira Metade da Tela" aborda hoje, num tributo a este renomado artista.

UMA AMIZADE SEM FRONTEIRAS (Monsieur Ibrahim et le Fleurs du Coran - França/2003) é ambientado na Paris dos anos 60, onde o turco Ibrahim, vivido por Omar Sharif, é dono de uma pequena mercearia num subúrbio proletário, repleto de imigrantes e párias da sociedade. 

Bem defronte à sua loja vive Momo, um menino judeu que mora com o pai depressivo num pequeno apartamento, e dada à ausência do seu genitor - que costuma sair para trabalhar e por vezes não volta tão cedo - Momo cria uma forte amizade com Ibrahim, ao mesmo tempo em que vivencia os primeiros anos da sua adolescência, aí se inserindo uma paixão não correspondida por uma vizinha.

Com o tempo, Ibrahim se torna um pai de facto para Momo, ensinando muito sobre sua crença sufi - uma vertente moderada do Islamismo - os negócios, a arte de conquistar mulheres, tudo em longas caminhadas pela cidade e mesmo no bairro em que estão.

E um acontecimento repentino torna esta relação mais intensa, levando-os a uma longa viagem, em sentidos real e figurado.

Prêmio César (o Oscar francês) de 2004 e do Festival Internacional de Veneza de 2003 como Melhor Ator para... OMAR SHARIF!

DE 0 A 10 = NOTA 9

Difícil catalogar este filme - se drama, se comédia, se romance ou aventura.

Provavelmente tudo isso, já que uma real (mesmo) amizade possui estes ingredientes, indissolúveis na consistência em que se encontram, por todo o período que ela dura. 

Independente de como rotulá-lo, é inesquecível.

Muito obrigado por mais essa, Omar Sharif. 

E boa viagem, grande amigo!

Trailer abaixo em italiano.


quinta-feira, 9 de julho de 2015

O ÚLTIMO REI DA ESCÓCIA

Idi Amin Dada tem lugar no álbum das personalidades mais controversas do século XX.

Foi presidente de Uganda, hoje um quase esquecido país africano, entre os anos de 1971 a 1979. Assumiu após um golpe de Estado e foi deposto durante a invasão do país pelo exército da Tanzânia, na esteira de uma das incontáveis guerras sem nexo que assolam a África.

O mesmo homem cuja aparência lembrava bastante Mussum dos Trapalhões, autor de aforismos como "um ser humano e um ser humano, e como um automóvel precisa de reabastecimento e de ar fresco, depois de trabalhar durante muito tempo", ou "eu me considero a mais superpoderosa personalidade do mundo, e é por isso que não deixarei nenhuma superpotência me controlar", tinha uma outra faceta nada engraçada: consta em sua conta algo entre cerca de 100.000 a 500.000 ugandenses mortos durante seu regime político.

O cinema tratou de exibir um pouco da sua história, e entre alguns exemplares, O ÚLTIMO REI DA ESCÓCIA (The Last King of Scotland - Inglaterra, EUA/2006) seria a melhor amostra da carreira deste déspota, pelo menos até agora.

Mas a história começa bem longe dos trópicos, lá na Escócia, onde Nicholas, um médico recém-formado, sem saber o que fazer após a graduação, escolhe aleatoriamente um lugar do planeta para ir trabalhar. Adivinha aonde? Sim, para Uganda.

Ele chega poucos dias antes do golpe que leva Idi Amin ao poder, e o primeiro contato entre ambos é logo após um comício de Idi Amin, em meio a um incidente na estrada. 

Um se encanta com a pessoa do outro - Nicholas por Amin, em razão da retórica e da envergadura do novo senhor da nação; Amin por Nicholas, simplesmente porque este é... escocês, nacionalidade que Amin afirma ser a da sua alma.
Escalado não apenas para ser o médico do presidente, mas um dos seus conselheiros políticos, Nicholas se embrenha não só nas esferas do poder, como também no labirinto que é a mente de Idi Amin, na vida pessoal do mandatário e ainda mais a fundo...

O jovem, sem se dar conta, vai se enroscando num denso espinheiro, com a realidade à sua volta queimando, e quando percebe a roda-viva em que se meteu, já é tarde demais para voltar atrás.

Oscar de Melhor Ator para Forest Whitaker em 2006.

DE 0 A 10 = 9

Os eventos do filme misturam fatos reais com fantasia, sendo a relação dos dois principais personagens fictícia, baseada no livro homônimo escrito pelo jornalista britânico Giles Foden, o qual participou de algumas conferências de imprensa com Idi Amin.

A interpretação de Forest Whitaker, no papel de Idi Amin, é digna de todos os prêmios que se possa imaginar, e mesmo se você não gostar do enredo, há de concordar que este renomado ator atinge seu apogeu nesta trama.

Na vida real, Idi Amin morreu em 2003, na Arábia Saudita, sem ser julgado pelos seus crimes. Mas ainda no governo, fez um pronunciamento antológico, eixo de toda a história aqui descrita:

"Muita gente na Escócia já me considera rei dos escoceses. Fui o primeiro a pedir à Inglaterra que termine sua opressão na Escócia. Se os escoceses quiserem que eu seja seu rei, eu serei"

Trailer.



segunda-feira, 6 de julho de 2015

ESPERANDO O RABECÃO


Na escolha de um exemplar do ótimo cinema argentino para incrementar "A Terceira Metade da Tela", optei por uma comédia.

Mas não qualquer comédia, mas 'A' comédia. A melhor comédia argentina até hoje, segundo muitos críticos, argentinos comuns e tantos outros do público em geral, como eu.

Até pouquíssimo tempo, eu me referia à mesma pelo seu título em castelhano, pois acreditava que não havia muita difusão do trabalho por aqui. Mas hoje falo de - tradução livre não escolhida por mim - ESPERANDO O RABECÃO (Esperando la Carroza - Argentina/1985), muito feliz por saber que tanta gente já conhece esta história no Brasil.

São quatro filhos, cada um com sua próprio estilo de vida (para alguns deles, mau estilo), que Mama Cora deu ao mundo. 

Mama Cora, uma octogenária espirituosa e falastrona, vive na casa de um deles, que passa por uma complicada situação conjugal porque sua esposa já não aguenta mais dividir espaço com a sogra, depois de tantos anos. E num dia de domingo qualquer, ela, a nora, surta por completo, fazendo com que os irmãos sejam forçados a debater a situação da velha mãe.

Enquanto um sacode a 'batata quente' para o outro, Mama Cora resolve sair sozinha pelo bairro, sem avisar a ninguém. Seu sumiço coincide com a descoberta do cadáver de uma idosa numa linha de trem, cujas descrições praticamente são as mesmas de Mama Cora. 

O caos se instala no seio da família, onde sentimentos tão díspares como amor, compaixão, raiva, respeito e hipocrisia brotam das situações cômicas que os parentes vivenciam, enquanto todos esperam o rabecão com o corpo da anciã.

O elenco conta com atores de primeira grandeza da época, como Antonio Gasalla (no papel de Mama Cora), China Zorrilla (atriz uruguaia, uma das melhores que já conheci), Julio De Grazia, Betiana Blum, entre outros.

DE 0 A 10 = NOTA 10!

Uma senhora (octogenária?) comédia!

Já assisti tanto que há trecho registrados na mente.

O legado deste filme é grande, tendo Mama Cora se tornado uma figura tão popular que teve programas em separado na TV argentina. 

Muitos países produziram adaptações do roteiro para o cinema, TV e teatro, todos eles latinos, incluindo Espanha e Portugal. 

No Brasil, surgiu o filme A Guerra dos Rocha, comédia bem satisfatória, mas que não se compara, em termos de enredo, com a rica trama portenha.

Houve uma sequência muitos anos depois, Esperando la Carroza 2, previsivelmente menos encantadora, dado o fato de que Mama Cora já não mais estava viva na história, e de alguns dos excelentes atores da primeira versão estarem ausentes. 

Além disso, o primeiro filme guardava um subliminar contexto político, pois a Argentina de então acabava de sair de uma violenta ditadura militar, e cada um dos filhos representava uma classe social do país, que viviam por sua própria conta, pouco se importando para a sua pátria - a Argentina, a Mama Cora.

Mas o que vale é que, com seus personagens folclóricos e caricatos, ESPERANDO O RABECÃO é comédia pura. E excepcional.

Posto o trailer em espanhol, sem legendas, como também o filme completo, com legendas em português.







quinta-feira, 2 de julho de 2015

TIMBUKTU

Por hora, pouquíssimos trabalhos sobre o grupo Estado Islâmico estão disponíveis para serem vistos. 

O único que assisti até hoje, no entanto, é tremendo.

Falo de TIMBUKTU (Timbuktu - Mauritânia, França/2014), que só por ser um filme mauritano já merece menção honrosa.

Aborda fatos reais que se passaram na cidade de Timbuktu, no norte do Mali, durante o curto período em que a cidade esteve sob o domínio da milícia Ansar Dine, um dos braços militares do Estado Islâmico na África. 

No filme, se veem várias histórias aleatórias que ilustram como foi a vida do lugar naqueles dias, onde as regras mais ortodoxas do Islamismo foram aplicadas, gerando prisões e julgamentos sumários. 

Uma vendedora de peixes que se nega a usar as luvas obrigatórias para as mulheres ocultarem as mãos, uma pelada de futebol onde os participantes jogam sem bola (a mesma foi confiscada pelos guerrilheiros), um grupo pego enquanto cantava músicas não religiosas, entre outros incidentes.

Ainda que não pareça haver um fio condutor, o filme narra também a história de um criador de gado e sua família, o qual se envolve numa briga com um pescador por conta de uma de suas reses, peleja que termina em uma morte e que é levada às autoridades constituídas pelo grupo jihadista, com resultados improváveis.

Prêmio do Júri Ecumênico do Festival de Cannes de 2014.

DE 0 A 10 = NOTA 9

Foi uma grande covardia terem posto tantos bons filmes concorrendo no Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de ano, TIMBUKTU ficando entre os cinco finalistas.

Ainda que narre uma história ocorrida no Mali, tudo foi filmado nos desertos da Mauritânia.

A grande ironia da trama é que os habitantes se indagam se não são islâmicos o suficiente para agradarem aos ocupantes, e caso não, qual seria o limite da devoção requerida, porque ainda que tudo o que fazem se baseie no Alcorão e na Sharia (espécie de código de condutas civis paralelo ao Alcorão), parece que determinados comandos surgem de uma outra fonte desconhecida dos conquistados.

Ao menos para mim, o sentimento é de que futuramente veremos muitas histórias do tipo, dado que o Estado Islâmico, neste momento, ainda domina grandes porções do Oriente Médio, tendo muita influência entre grupos rebeldes na África, como o Boko Haram (Nigéria) e o Al Shabab (Somália), e nem tudo que ali se passa é revelado ao público.

Temos o trailer a seguir.