E é de lá que vem a resenha de hoje, sobre um filme que passa na tangente de instituições magníficas daquele país magnífico - a arquitetura moderna, o premiado programa de bem-estar social, o melhor índice de educação pré-universitária, o clima, os doces, a belíssima e difícil língua finlandesa, o design industrial, a música folclórica.
Grande expoente da Sétima Arte da "Terra dos Mil Lagos", Aki Kaurismäki, numa de suas primeiras obras, presenteou o mundo com uma visão intrigante de sua terra natal, na pessoa de uma controversa garota operária.
Em A MENINA DA FÁBRICA DE FÓSFOROS (Tulitikkutehtaan tyttö - Finlândia/1990), Iris (interpretada pela competente Kati Outinen), trabalha numa linha de produção numa fábrica de fósforos, vivendo uma rotina espartana e milimetricamente cronometrada.
Sai de casa, trabalha, volta para casa, apronta o jantar da família, lava a louça, vai se deitar.
Nos sábados à noite, frequenta bailes insípidos, opção escolhida a fim de evitar se quedar em casa, na companhia de seus taciturnos pais.
Em determinado momento, sua monótona vida é sacudida por um relacionamento com Arne, um homem sem intenções reais definidas e cuja impessoalidade irá afetar a melancólica calma em que Iris, até então, estava imersa.
A MENINA DA FÁBRICA DE FÓSFOROS fecha a premiada "Trilogia Proletária" de Aki Kaurismäki, precedido por Sombras no Paraíso e Ariel.
DE 0 A 10 = NOTA 9
Se não fosse um filme dramático, com um toque muito sutil de humor negro, A MENINA DA FÁBRICA DE FÓSFOROS bem que poderia ser um filme de terror.
Explico.
Não necessariamente tentando expor a baixa densidade demográfica finlandesa, a primeira dicção humana ocorre cerca de sete minutos depois de iniciado o filme (e mesmo assim por meio de um boletim de notícias na TV), malgrado o fato de que elementos criados pelo homem - e vários exemplares desta espécie - habitam a paisagem da película nos minutos antecedentes.
E me detenho um pouco mais neste prólogo: a primeira cena mostra com detalhes o processo de manufatura de fósforos, desde o corte da madeira no tronco original até o seu empacotamento, onde máquinas enlouquecidas, numa sinfonia monocórdia, transmitem um sentimento alienante que se perpetrará por todo o resto da trama.
Neste trabalho, a impressão da nossa patente falência como ser social não fica no campo da impressão, o que se acentua na observância contínua da trajetória da absorta Iris em meio a ícones da modernidade sem expressar o menor desejo de interagir com nenhum deles, ao mesmo tempo em que esse estranho mundo que a comporta igualmente não se apercebe da sua existência, num exercício inconsciente de negação mútua, que hoje se traduz em cenas tristes, mas reais, como uma que recentemente testemunhei numa noite, numa pracinha de uma cidade do interior, apinhada de gente, onde o silêncio era sepulcral, pois quase todos estavam concentrados em seus aparelhos celulares, dedos frenéticos, quiçá buscando Finlândias melhores para si (embora úteis, que me perdoem os avanços tecnológicos nestas horas).
Como se Nighthawks* (ao lado) ganhasse vida, em que todos estão ali, mas ignoram não só sua autoridade presencial como também a auto-clausura que seus iguais suportam, até mesmo os contatos físicos são angustiantes, gélidos, protocolares.
Todavia, em que pese estas linhas, afirmo piamente que é um filme maravilhoso, que mostra quão grande é a solidão humana, mas que nos leva a enxergar este vetor psicológico de maneira despudorada, quem sabe combativa, onde queremos pegar Iris pela mão e a arrancarmos não só das ruas de Helsinki, mas dela mesma.
A cena abaixo é um ensaio idílico nesta tragicomédia urbana, em que a letra da canção Satumaa (País dos Sonhos) - um tango finlandês! - manifesta o desejo de Iris, de outros finlandeses e muitos nórdicos mundo afora - incluindo-se alguns nem tão nórdicos, dependurados na Linha do Equador...
* Famosa tela de Edward Hopper (1882-1967), pintor realista norte-americano, conhecido por retratar o distanciamento entre os homens e a desconexão destes com a "vitoriosa" sociedade capitalista que criaram, o que para muitos é uma crítica ao "sonho americano".




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