segunda-feira, 28 de setembro de 2015

WADJDA


A inacessibilidade de determinados assuntos talvez expresse a certeza de que os mesmos não podem invadir (ou serem invadidos) pelo(s) campo(s) da arte.

Ledo engano.

Sendo a arte a ciência não-oficial da provocação, uma realidade fática pode adquirir nuances inesperadas se vistas dentro de um caleidoscópio que proporcione outra forma de ser captada, ainda que certos tabus que a envolvam sejam sacudidos.

O SONHO DE WADJDA (Wadjda - Arábia Saudita, Alemanha/2012) brota num local improvável, sob circunstâncias mais improváveis ainda.

A protagonista é uma menina de seus 10 ou 12 anos, que vive em Riad, Arábia Saudita. 

Criada sob o Islã, ela questiona os valores da sociedade em que vive, gerando os inevitáveis atritos na escola e em casa, ambiente no qual sua mãe já passa por uma insurgência perante o pai de Wadjda, dado que ele quer arrumar uma segunda esposa, algo perfeitamente natural entre os muçulmanos.


O sonho de Wadjda se traduz no seu desejo de ter uma bicicleta e andar pelas ruas da cidade com seu amigo Abdullah, mas dispensável dizer que no seu país as mulheres não podem guiar qualquer veículo.


Mas quem disse que Wadjda se conforma? 

Disposta a tudo para alcançar seu objetivo, ela se inscreve num concurso de leitura corânica e fabrica pequenos artesanatos, a fim de angariar dinheiro. 

Afinal, sonhos não têm limites. Ou teria?

Ganhador de diversos prêmios em festivais menores mundo afora, além de láureas no Festival de Veneza de 2012.

DE 0 A 10 = NOTA 9


Não só o personagem principal é alguém do sexo feminino, como a maioria do elenco e a própria diretora, Haifaa al-Mansour.


Pode ser considerado como o primeiro filme totalmente produzido na Arábia Saudita.

Em linhas gerais, é um trabalho que se destaca pela sua inovação, e por uma constatação tão óbvia que, pelo grau de sua simplicidade, passa despercebida.

Wadjda ignora todas as regras da sociedade em que se insere pelo prosaico fato de nada daquilo fazer o menor sentido para sua mente impoluta, pois as proibições ali vigentes, ao seu ver, não parecem legitimadas pela necessidade de se garantir o bem-estar dos cidadãos, em especial dela, uma menina que se tornará mulher um dia.

É evidente que o grau de emancipação feminina varia de nação para nação no mundo islâmico, mas estamos falando do país berço da religião muçulmana. E este ingrediente torna a fábula mais ainda atrevida.

Os atores se entregam aos seus personagens como que num ato de libertação, mesmo que como peças oponentes no jogo em que Wadjda disputa seu sonho. Provavelmente semiamadores, eles surpreendem com o único trunfo que têm para um enredo tão característico: eles são eles mesmos, sauditas.

Após ver o trailer, confira o filme. Vale o convite.


quinta-feira, 24 de setembro de 2015

A ACUSADA


A ACUSADA (Lucia de B. - Holanda/2014) nos traz uma história real e provocante.

Lucia de Berk é uma enfermeira holandesa com um comportamento reservado, porém muito profissional. 

Responsável pela UTI de um determinado hospital, de repente se vê acusada pela morte de sete bebês e idosos. 

Para piorar, as investigações apontam que nos hospitais por onde Lucia passou um número anormal de mortes súbitas ocorreu, quase todas em seus plantões.

Sob risco de pegar prisão perpétua, Lucia vê seu processo transcorrer por iniciativa da promotora Hansen e de sua assistente Judith, que, sendo nova no emprego, se empenha ao máximo em arranjar provas que contribuam para a condenação de Lucia.


Lucia é elevada aos status de persona non grata pela mídia na Holanda, enquanto que sua vida privada vai aos poucos, por meio das descobertas que Judith realiza, sendo revelada, mostrando uma história pessoal dramática e repulsiva.

Até onde vai a investigação? Qual o grau de culpa de Lucia? O que ela tem a dizer a respeito?

Candidato holandês para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2014.

DE 0 A 10 = NOTA 9

Um filme de prender o fôlego, com vertiginosas surpresas, baseado num caso que sacudiu a Holanda em meados dos anos 2000.

Ariane Schluter, no papel de Lucia de Berk, é esmagadora, e ninguém fica inerte à sua atuação.

As imagens (exceto as que mostram flashbacks da vida da protagonista) se utilizam de um filtro frio, pesado, o que acentua o suspense da trama. 

Operadores de Direito e Enfermagem vão se deleitar com o enredo, além dos apaixonados por uma boa história policial.

Vale a  pena ver mais de uma vez.

Trailer a seguir.
(Resenha dedicada à minha amada esposa Eline, enfermeira comprometida com a ética numa profissão tão mal reconhecida e por vezes estigmatizada). 

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

ALPES


A única certeza que temos neste momento, e em todos os momentos vindouros, é que não ficaremos aqui, neste mundo, em caráter definitivo, por mais tempo que possamos insistir na permanência.

Paradoxalmente, é no embate a esta mesma constatação pétrea onde existe a maior manifestação de inconformismo da raça humana - negar a morte de todas as formas.

ALPES (Alpeis - Grécia/2011) é uma grata experiência sobre a questão em tela, e embora dê umas escorregadas (já já eu conto mais sobre isso), sua abordagem é satisfatória e naturalmente surreal, o que o diretor Yiorgos Lanthimos (do altamente controverso Dente Canino) se esmerou em potencializar.

ALPES é uma sociedade de quatro pessoas de perfis bem distintos (há um paramédico e uma ginasta, por exemplo), que se propõem, mediante pagamento, a "substituírem" pessoas falecidas.


O processo é o seguinte: as famílias em luto contratam um dos Alpes para incorporarem o parente falecido, quando o substituto imitará, com extrema precisão, todos os trejeitos da pessoa que partiu, desde o modo de falar e se expressar até preferências culinários e musicais, desde as virtudes aos piores defeitos, objetivando diminuir o trauma da perda.

Assim, por algumas horas no dia, eles brincam de mortos-vivos. Situações bizarras têm início a partir de então e se alongam pelo filme inteiro.

Então, um personagem começa a sair do limite da encenação, pondo o projeto em risco.

Ganhador de um dos prêmios de Melhor Direção no festival de Veneza de 2011.

DE 0 A 10 = NOTA 8

Uma boa ideia para se trabalhar, um resultado aquém do esperado.

O enredo tinha tudo para ser um divisor de águas no cinema europeu (e não apenas), mas fatores paralelos minaram um pouco esta pretensão.

A narrativa é inconstante, ora correndo mais que trem-bala, ora a passos de cágado, fato que angustia o espectador porque dá a sensação de que muita coisa pelo caminho ficou em aberto. 

A própria justificativa para o título do filme não me desceu bem pela traqueia, algo entre presunçoso ou mesmo ingênuo... enfim, perdido no meio da trama.

Porém, o motto original dá para salvar o filme, calcado num viés psicológico interessante de se debater.

De resto, boas interpretações e fotografia.

Trailer a seguir, em espanhol.


quinta-feira, 17 de setembro de 2015

SOBREVIVENTE

Preparados para sentirem muito frio?

Vamos hoje à Islândia, com o objetivo de conhecer uma história real que assombrou meio mundo e se transformou em filme, que estreou há pouco tempo por aqui.

SOBREVIVENTE (Djupith - Islândia/2012) narra uma aventura que beira o inimaginável: um barco pesqueiro naufraga na costa islandesa à noite, e o único sobrevivente é um marinheiro que precisa nadar no mar gelado para alcançar a costa.

Sim, Gulli está a bordo da pequena embarcação, que vai a pique a quilômetros da costa, à noite, no meio do inverno. Luta contra a gélida temperatura da água, as ondas, o vento forte, a falta de orientação, a má lembrança de ver seus amigos morrerem.

Mas enfim, ele chega em terra, para espanto de muita gente que fica sabendo da epopeia dias após.

O que Gulli não imaginava é que todos duvidariam de sua estória.


Nomeado para o Prêmio de Melhor Filme do Conselho Nórdico de 2012.

DE 0 A 10 = NOTA 9

Em 1984, durante uma noite de inverno, na costa das ilhas Vestmanneyjar, no sul da Islândia, houve um naufrágio, com um único sobrevivente: Guðlaugur Friðþórsson.

Gulli, como era conhecido, em muitos momentos teve que suportar a dor física, resultante da malfadada aventura, e da emocional, resultante da morte de seus companheiros, para enfrentar o ceticismo público resultante de um dado quase óbvio - como um ser humano sobreviveria por seis horas nadando em águas cuja temperatura era quase a do grau de congelamento?


Tal questão gerou, inclusive, experimentos médicos com o marinheiro, o que o trabalho também exibe.

Filme repleto de emoção, detonada pela exposição da pessoa de Gulli, que cresceu nas ilhas Vestmanneyjar, tendo que abandonar o arquipélago quando de uma erupção vulcânica. Cenas reais de arquivo desta erupção são mostradas, objetivando descrever a fibra de Gulli ante as adversidades. 

Um ótimo trabalho do diretor Baltasar Kormákur.

Trailer abaixo.



segunda-feira, 14 de setembro de 2015

ANTES DA CHUVA

"A Terceira Imagem da Tela" resolveu ir até a Macedônia - oficialmente, Ex-República Iugoslava da Macedônia, termo utilizado para não haver confusão (mesmo) com a região grega do mesmo nome - para relembrar um grande filme de meados dos anos 90.

ANTES DA CHUVA (Pred dozdot - Macedônia, Inglaterra/1994) se apresenta em três sequências demarcadas, mas que se entrelaçam, experiência recentemente repetida em filmes de Alejandro Iñárritu (21 Gramas, Amores Brutos, entre outros), sendo que de maneira mais relaxada, o que dá ao espectador mais liberdade de se envolver no roteiro - nada contra Iñárritu, do qual tenho muitos elogios a fazer.

A história se passa, como já citado, na Macedônia, especificamente após este país se desvencilhar da Iugoslávia, antiga nação que era composta de seis repúblicas federadas e cujo processo de desintegração foi bem heterogêneo, tendo a Eslovênia se separado sem praticamente nenhum confronto bélico, enquanto que a Bósnia-Herzegovina mergulhou numa guerra horrorosa por três anos e que até hoje rende más consequências ao país.

A Macedônia vivenciou poucos episódios sangrentos, mesmo porque era a parte mais pobre e distante da Iugoslávia, e talvez por isso não valeu tanto a pena brigar por ela, e parte deste conflito é mostrado no filme em questão.

Na primeira parte, denominada Palavras, nuvens de chuva vêm se aproximando Kiril, um monge macedônio que fez voto de silêncio, descobre uma albanesa escondida em sua cela no mosteiro, a qual é acusada de assassinar outro macedônio. Mesmo sem entender nada do que a moça fala (e mesmo se compreendesse, dado o voto de silêncio, Kiril não trocaria sequer um "olá" com ela), ele a oculta dos seus superiores, pondo todo o mosteiro sob perigo quando guerrilheiros macedônios insistem em vasculhar o local à procura da suposta homicida.

Na sequência, Rostos se desenrola a quilômetros dali, em Londres, onde a editora Anne tem um relacionamento extraconjugal com o premiado fotógrafo Aleksander (grandemente interpretado pelo grande Rade Serbedzija, de Busca Implacável II), o qual quer que ambos vão para a Macedônia, sua terra natal. Mas para isso, Anne tem que se resolver com seu marido Nick, e num jantar a dois em um restaurante londrino, alguns eventos dão a tônica deste impasse.

Imagens, a terceira parte, nos leva de volta à Macedônia, conjugando os dois primeiros trechos do filme, quando Aleksander decide se estabelecer de vez em sua aldeia, mas se surpreendendo ao encontrar albaneses e macedônios, que conviviam pacificamente, guerreando entre si, tendo ele dificuldade de entender como vai se relacionar com uma ex-amiga, albanesa, cuja irmã desapareceu acusada de matar um macedônio, o que ocorreu ANTES DA CHUVA...

Prêmio de Melhor Filme do Festival de Veneza de 1994.

DE 0 A 10 = NOTA 10!

Obra que foi pioneira em mostrar os conflitos étnicos que assolaram os Bálcãs por décadas pós-comunismo, sendo praticamente o mais brilhante filme macedônio produzido até hoje.

A fotografia é inebriante, com ênfase em cenas estáticas que vão desde as inóspitas montanhas macedônias, pontuadas de vilarejos e mosteiros ortodoxos, até recantos de Londres. 

A trilha sonora, assinada pelo grupo Anastasia, cem por cento composta por elementos balcânicos, caiu em cheio no meu gosto. 

As interpretações são marcantes, de uma dramaticidade hercúlea.

O roteiro, como mencionado, resulta no casamento de duas histórias que virtualmente pouco tinham em comum, mas que se mesclam de um modo maravilhoso.

Porém, as três partes, da forma como tudo ocorre, poderiam perfeitamente ser arranjadas em qualquer ordem, não importando qual iniciaria e qual encerraria esta tripartição, o que se justifica na frase-moral-da-história que é dita mais de uma vez neste filme:

"O tempo nunca morre; e o círculo nunca é redondo".

Um épico!

Abaixo, uma canção do soundtrack, Pass Over (espetacular!), com cenas do filme.  


quinta-feira, 10 de setembro de 2015

BABAR: O FILME


BABAR: O FILME (Babar: The Movie - França, Canadá/1989) é um longa-metragem que traz o personagem homônimo, criado pelo ilustrador francês Jean de Brunhoff no distante ano de 1931, em uma grande aventura.

Ele é um elefante carismático, rei da Terra dos Elefantes, casado com a Rainha Celeste, com quem tem quatro elefantinhos.

Instigado pelos filhos a contar sua história, no dia do Desfile da Vitória, ele narra os primeiros momentos em que se tornou rei, ainda pequeno, quando herdou a coroa.

Naquele momento, ele ficou sabendo pela sua prima Celeste (com quem mais tarde se casaria) que o lorde dos rinocerontes, Rataxés, iria atacar a Terra dos Elefantes.

Não querendo se submeter à burocracia do reino, que se empenha em analisar a viabilidade de um contra-ataque, e descobrindo que a aldeia de Celeste foi incendiada, Babar abandona o palácio real e se embrenha na perigosa selva tentando ajudar a prima, cuja mãe foi levada como escrava para a terra dos rinocerontes junto com outros elefantes adultos.

Babar terá de usar de astúcia e honrar seu posto de rei, mesmo sendo apenas um jovem elefante, embora conte com a ajuda do seu primo Artur e do macaco Zephir, a fim de evitar a invasão de seu reino pelo malvado Rataxés e seu temível exército.

DE 0 A 10 = NOTA 9

BABAR, em verdade, é uma série de desenhos diferentes, que aqui no Brasil foram transmitidos pela TV Cultura durante um bom tempo.


Poucos desenhos animados discutem valores tão caros como companheirismo, fidelidade e integridade como este.

Seja adulto, seja criança, todos que assistem se rendem a este clássico da animação.

Um pequeno trecho do filme.


(Resenha dedicada à minha filha Isabel, que é o mesmo nome da filhinha de Babar que pede ao pai para contar a história acima).

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

STALKER

Atualmente, o gênero ficção científica não detém mais a flamejante atração de outrora.

Alguns representantes atuais - Sob a Pele e Interestelar, por exemplo - têm reacendido o fascínio por este tipo de filme, que costumava aguçar os sentidos e criar imagens de um potencial futuro onde muito do diapasão disposto não dependeria de ações e sequer do pensamento humano, mas seriam resultados diretos do antigo querer do nosso âmago em gerar uma sociedade perfeita.

Daí a denominação alternativa que muitos críticos dão a esta vertente cinematográfica - ficção futurista, a se considerar a epistemologia como pilar sine qua non de nossa natural evolução.

STALKER (Stalker - URSS/1979), inspirado no romance Piquenique à Beira da Estrada, dos irmãos Strugatsky, trabalha esta possibilidade de um modo esplendoroso, pois como um deleitoso adicional, mescla elementos filosóficos e psicológicos a uma trama sem paralelo.

Um meteoro cai numa região afastada de um país não revelado. A área, batizada de "Zona", é rapidamente isolada pelo governo e se torna virtualmente intransponível, com vigilância ostensiva.

Fala-se que aqueles que ingressam na Zona passam por uma interação especial com aquele ambiente, e dois homens, conhecidos apenas como Escritor e Professor, desejam conhecê-la de perto, ainda mais quando se sabe que aquele que o consegue realizará, lá dentro, todos os seus desejos mais íntimos, ao adentrar num recinto específico - o Quarto.

Um stalker (palavra inglesa para "perseguidor", no sentido de alguém que sempre fica de tocaia) é procurado por Escritor e Professor (o primeiro, carente de inspiração; o segundo, buscando novos achados científicos) já que somente ele saberia o acesso para adentrar na Zona. Assim, o grupo efetivamente concretiza o plano, encarando uma experiência que jamais acreditariam viver.

Prêmio do Júri Ecumênico do Festival de Cannes de 1980.

DE 0 A 10 = NOTA 10!

O brilhantismo de STALKER é expor a inafastável sinergia entre o conceito real e a metáfora de todas as manifestações que concebemos em nosso meio circundante.

O mundo "real", nesta obra, é opressor e impessoal, o que bem se retrata na fotografia usada, com filtros quentes e bicolores, apresentando lugares desolados e alienantes, ao mesmo tempo em que habitado por diversas espécies da fauna humana, a qual - conforme se atestaria - falhou em sua tentativa de formatar um planeta bom para se viver.

Então, o que seria a Zona, que na película se mostra colorida, vasta e variada em paisagens?

Quando se sugere a possibilidade de uma passagem, devendo os candidatos empreenderem a ativa obrigatoriedade de executá-la, a conotação ganha asas de longos remígios.

Seria o Céu, onde as dores desapareceriam e as lágrimas cessariam, já que o meteoro representaria a intervenção divina em abreviar o processo de destruição desta hipotética Pangeia detonado por nós mesmos...

Seria outro planeta, um catalisador final para a remissão do homem, como uma "segunda chance" para se tentar acertar e construir um meio antropológico edificante, e não autofágico...

Quem sabe um universo paralelo, disponível a qualquer tempo, em qualquer lugar, como um delivery de fast food, no qual todos poderiam resgatar sua condição de ser reflexivo - ou mais ainda, dado que entrando no Quarto, os sonhos se tornam reais...

Talvez tudo isso - ou coisa outra ainda não captável, pois uma quase-miríade de referências bailam nesta fantasia (desde um trecho do livro bíblico de Daniel até excertos de Shakespeare são proferidos), o que demonstra a amplitude do enredo.

Um filme para sempre, magistral, em que Andrei Tarkovski, mais uma vez, reafirmou seu nome como um dos melhores diretores soviéticos.

E apenas a termo de curiosidade:

1 - Grande parte das filmagens teve lugar em uma usina química desativada em Jägava, na Estônia,  o que justificou o fato de muitos integrantes do elenco, como também o diretor Tarkovski, terem morrido de câncer anos mais tarde;

2 - A trilha sonora é assinada pelo genial Eduard Artemyev, que colaborou com Tarkovski em outras realizações, como Solaris e Sibiriada, este último um filme que estou tentando ver há muito tempo. 

Em STALKER, Artemyev utilizou recursos psicodélicos aliados a solos de tar, um milenar instrumento de cordas da Ásia Central.

Seguem abaixo os links para o trailer em inglês...

https://www.youtube.com/watch?v=GM_GOpfEQUw

... o tema de Stalker...

https://www.youtube.com/watch?v=pP1QXKbhqr4

... e o tema de Sibiriada, este como sendo um dos soundtracks mais belos que já ouvi.

https://www.youtube.com/watch?v=sJj9y4t9UnU

(Resenha dedicada a meu pai, entusiasta de filmes de ficção científica).

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

PÃO E ROSAS

Em 1912, houve uma greve no estado americano de Massachussetts, a qual teve uma participação massiva das mulheres, onde pela primeira vez foi utilizada a expressão "pão e rosas".

Entretanto, um ano antes, James Oppenheim, baseado num pronunciamento da ativista Rose Schneiderman, escreveu um poema com o mesmo nome.

Não é sobre esta emblemática história que PÃO E ROSAS (Bread and Roses - França, Alemanha, Espanha, Inglaterra, Suíça/2000) se debruça, mas narra uma "dramédia" (termo que ouvi assistindo a um episódio de desenho animando de Patolino, o pato negro mal-humorado, que na ocasião queria criar um gênero único para seus filmes). Se assim não fosse, o enredo (muto bom) seria um pouquinho travoso. 

Maya imigra ilegalmente do México para os EUA, se instalando em Los Angeles, na casa de sua irmã Rosa, a qual já mora há anos na nação vizinha.

Por meio da irmã, Maya consegue emprego de faxineira num prédio que concentra conglomerados comerciais, e com pouquíssimo tempo de trabalho se depara com corriqueiras situações que tocam os estrangeiros que se dispõem a desempenhar a tarefa - perseguição pelos seus superiores (igualmente estrangeiros, manipulados pelos seus chefes americanos), pagamento de propina para evitar a deportação, extenuantes jornadas laborais etc.

Eis que surge Sam (Adrien Brody, premiado com o Oscar de Melhor Ator por O Pianista), um sindicalista americano empenhado em denunciar as irregularidades trabalhistas, o qual abraça a causa de Maya e de seus colegas.

Maya titubeia em se sindicalizar, pois supõe que esta atitude complicará ainda mais seu estado de clandestinidade, enfrentando tanto a insistência de Sam quanto o receio de sua irmã Rosa.

Prêmio de Melhor Filme Europeu no Festival do Rio BR 2000.

DE 0 A 10 = 8,5

As interpretações, mesmo dos figurantes, são dignas de muitos elogios.

Como produção independente, cujo foco seria tanto entreter como instruir, PÃO E ROSAS disserta seriamente com o espectador sobre consciência de classe, porém sem se render às pretensões de filme panfletário.

E com diversas situações cômicas vividas pelo elenco, Patolino, o inventor da "dramédia", teria se agradado bastante deste filme. 

Abaixo, trailer em espanhol.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

TEZA

Haveria algo mais exótico do que cinema etíope?

Pois é, mas não chega a ser novidade que a Etiópia já possui uma grande tradição dentro da Sétima Arte, em parte voltada para a doutrinação política.

E é sob esta dinâmica que TEZA (Teza - Etiópia, Alemanha/2008) desponta como uma experiência agreste e marcante, discorrendo sobre uma época sombria da história do país, logo após a queda do imperador Hailé Selassié, mais conhecido como o Ras Tafari (de onde surgiu o conhecido movimento pacifista que ganhou projeção global a partir da Jamaica, sem, no entanto, ter qualquer ligação com o filme aqui abordado).

Amberber é um jovem idealista, que na década de 70 cria no marxismo como a solução para os desajustes do regime imperial que o Ras Tafari comandava. Sendo estudante de medicina, consegue uma bolsa de estudos para uma pós-graduação na Alemanha Ocidental.

Tentando se adaptar àquela sociedade tão hostil com os imigrantes, ele e outros compatriotas se dividem quando chega a notícia de que a monarquia foi derrubada por um golpe comunista. 

O ano era 1974, auge da Guerra Fria, e entusiasmado com a possibilidade de, sendo um profissional altamente graduado, voltar à terra natal e ajudar na reconstrução social, Amberber assim resolve fazer, nem que para isso deixe para trás sua esposa alemã e seu filho recém-nascido.

Mas com pouco tempo trabalhado para o regime do Derg (assim era denominado o comitê central que regia a Etiópia socialista), ele presencia barbaridades ainda piores do que as do regime de Hailé Selassié. 

Usado como fantoche político, Amberber se questiona se deveria ainda cultivar sua devoção filial à sua posição ideológica, pois agora é chefe de família e testemunha de que o sonho de uma sociedade igualitária na Etiópia vai morrendo dia após dia.

TEZA venceu o Festival Panafricano de Filme e Televisão de 2009.

DE 0 A 10 = NOTA 10!

O filme se inicia com Amberber já sexagenário, arcando com as consequências de suas escolhas.

Investindo em diversos flashbacks, TEZA, que significa "neblina da manhã" no idioma amárico, mostra com decisiva crueza a realidade da Etiópia antes, durante e depois do período do Derg, que foi responsável, entre outras coisas, pela política de extermínio em massa por meio da fome, que criou dentro do país bolsões populacionais em áreas não cultiváveis, para onde os opositores do regime eram deportados, atitude que futuramente despertou a solidariedade das nações mais ricas em tentar ajudar a Etiópia, onde We Are The World (lembram?) era a canção pano-de-fundo para a campanha.

Cenas dos rituais da igreja ortodoxa etíope são mostradas, o que abrilhanta ainda mais o enredo.

Hailé Selassié morreu poucos dias após o golpe. Investigações recentes comprovaram que ele foi asfixiado enquanto dormia, o que encerrou quase 3.000 anos ininterruptos (!) de monarquia etíope, que entre seus representantes teve a famigerada Rainha de Sabá, uma das esposas do bíblico rei Salomão.

Poucos filmes administram um contexto histórico tão rico como esse, o que me alimentou um sonho já existente, o de um dia conhecer de perto a gloriosa Etiópia.

Trailer em inglês. 


quinta-feira, 27 de agosto de 2015

DESDE QUE OTAR PARTIU...


Existe uma Geórgia que não é aquele Estado norte-americano, no qual fica a cidade de Atlanta e de onde vez por outra surgem filmes que abordam o passado escravocrata dos EUA.

Falo da ex-república soviética da Geórgia, um belíssimo país, dono de uma das mais lindas bandeiras nacionais (ao lado), que foi um grande império na Idade Média e hoje tenta se manter, meio que precariamente, após o passado comunista.

É de lá que vem a fábula de hoje, chamada DESDE QUE OTAR PARTIU... (Depuis qu'Otar est parti... - Geórgia, França Bélgica/2003)

Tbilisi, capital do país. Marina, uma ex-engenheira que trabalha no mergado de pulgas da cidade, vive num apartamento com sua filha, Ada, uma estudante universitária, e sua idosa mãe Eka.

Eka só tem olhos para Otar, seu filho médico que partiu para Paris, onde trabalha como taxista, já que na Geórgia a crise econômica está em franca ascensão.

Marina, naturalmente, tem ciúmes desta relação, o que faz com que frequentemente entre em choque com a mãe pelas mínimas coisas que conversam - desde política a gostos musicais.

Ada tenta ficar alheia ao conflito, mas curiosamente ela é o esteio entre Eka e Marina, tratando sua mãe e sua avó com muita ternura.

Otar costuma mandar cartas a Eka, sempre junto com uma pequena soma de dinheiro.

Um dia, as cartas param de chegar sem qualquer razão, ocasião em que Marina e Ada criam diversas situações para preservar Eka, que concentrou no seu filho suas esperanças no futuro que ainda lhe resta.

Grande Prêmio da Semana da Crítica do Festival de Cannes de 2003.

DE 0 A 10 = NOTA 9

Curioso ver que parte dos diálogos é em francês, o que se justifica pela ligação afetiva que os antepassados da família possui com a França, aliado ao fato de a Geórgia ser membro observador da Francofonia, uma região geográfica que abrange todo o planeta e engloba os países francoparlantes (a Geórgia não fala francês, lembremos, mas sim georgiano e, como língua veicular, o russo).

O filme serve, não tanto involuntariamente, como uma vitrine para se conhecer como foi o processo de transição das repúblicas socialistas soviéticas para nações capitalistas.

As três mulheres encarnam toda uma geração de georgianos que tentava se acostumar a um mundo completamente novo, ao mesmo tempo em que a nostalgia da ex-URSS costumava bater à porta.

Nesta cativante história, uma valiosa reflexão sobre os reais valores da vida tem lugar, sendo a dinâmica família o axioma de toda esta análise.

Trailer deste maravilhoso trabalho, em inglês.


segunda-feira, 24 de agosto de 2015

O OPERÁRIO

Faz um ano que Trevor não dorme.

Sim, você leu bem: o protagonista de O OPERÁRIO (The Machinist - Espanha/2004)  não sabe o que é uma cama há um ano. 

Passa as noites em claro, vendo TV, lendo, limpando o apartamento em que vive sozinho. Por vezes sai de madrugada para tomar um cafezinho no aeroporto da cidade, onde sempre conversa com a garçonete Maria, ou de vez em quando recebe em casa Stevie, uma prostituta que termina se tornando sua amiga.

Mas com o tempo Trevor vai definhando, virando uma esquálida figura que mal se sustenta em pé, tamanha é a deterioração de seu estado físico.

Um dia, começam a surgir mensagens estranhas em seu apartamento, escritas em pedaços de papel que aparecem afixados na geladeira ou no banheiro, as quais Trevor tem plena certeza de que não foi ele quem escreveu.


Não bastassem essas intrigantes ocorrências, ele conhece Ivan no seu local de trabalho, uma metalúrgica. 

O problema é que ninguém ali jamais viu ou ouvir falar de nenhum Ivan, o qual insiste em dizer a Trevor que trabalha na mesma linha de produção que ele.

Será que seu estado mental começou a ser afetado pela insônia? Haveria uma conspiração individual ou conjunta para enlouquecê-lo? E por que, por mais que tente, Trevor não prega os olhos uma única noite?

Fique à vontade para desvendar este mistério.


DE 0 A 10 = NOTA 8,5

Christian Bale, que interpreta Trevor, teve de perder 30 kg para incorporar o personagem, chegando a pesar 54 kg, depois de um rigoroso regime acompanhado por nutricionistas.

A história se passa na Califórnia, embora as filmagens tenham sido em Barcelona, na Espanha.

Um elaborado thriller psicológico, que para os amantes do gênero, como eu, é super recomendável.

Vamos ver o trailer?




quinta-feira, 20 de agosto de 2015

4 MESES, 3 SEMANAS E 2 DIAS


Era uma vez um governante que percebeu que seu país estava despovoado e acreditava que se as famílias crescessem exponencialmente haveria mais chances de a nação ser próspera.

Assim, ele determinou que as mulheres não poderiam usar métodos contraceptivos, instituiu impostos para famílias com poucos filhos e premiações para as mães com mais de cinco crianças. Quem fosse pega tentando abortar e/ou colaborando com um aborto era invariavelmente detido e condenado a muitos anos de prisão.

Parece insólito, não? Mas tudo isso realmente aconteceu.

"A Terceira Metade da Tela" visita a Romênia para mostrar melhor esta história, porém sem se deter muito na veia política da coisa, mostrando um episódio fictício que ilustra bem um período o qual quase todos os romenos fazem questão de esquecer.

4 MESES, 3 SEMANAS E 2 DIAS  (4 luni, 3 săptămâni şi 2 zile - Romênia/2007) se passa no ano de 1987, pouco tempo antes de o regime comunista cair de podre em quase todo o Leste Europeu.

Gabitsa e Otilia são duas estudantes universitárias vindas do interior e dividem um quarto no alojamento da sua faculdade em Bucareste. Gabitsa engravidou sem desejar, e pede ajuda a Otilia para que, juntas, encontrem um médico para realizar um aborto clandestino.


Graças à sugestão de uma conhecida, elas chegam a Bebe, um homem estranho, que realiza o procedimento que Gabitsa quer fazer. 

As amigas alugam um quarto num hotel para executar o plano, e Otilia, para ajudar Gabitsa, tem que negociar a cirurgia com Bebe, que declara que só faz o aborto se a gravidez for de até três meses, o que não é o caso. 

E é sob a sombra da polícia, da intransigência de Bebe e da desconfiança do seu namorado e dos funcionários do hotel que Otilia tenta livrar Gabitsa de complicações que a situação em que está envolvida pode acarretar.

Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2007.

DE 0 A 10 = NOTA 9

Nicolae Ceausescu governou a Romênia entre os anos de 1965 a 1989.

Entre suas tresloucadas decisões, ele anunciou a proibição do aborto e prisão para todos os envolvidos, vez que queria que a população do país dobrasse no intervalo de alguns anos. 

Abortos clandestinos grassavam país afora, num mercado negro de arriscadas cirurgias onde muitas mulheres preferiram morrer do que serem pegas pela Securitate, a feroz polícia política do regime.  

Se há algo de humano neste impactante filme, seria apenas a fidelidade canina que Otilia possui para com Gabitsa, o que a faz se submeter a situações repulsivas para socorrer a amiga.

Todo o resto, sem dúvida, é um ciranda de degradação humana, algo que, guardada as devidas proporções que o delicado tema do aborto comporta, põe em xeque se valeria a pena uma criança vir ao mundo para viver numa sociedade tão avessa à solidariedade mútua.

Sem qualquer trilha sonora (não que eu lembre), a música bem que poderia ser o sincopado bater dos corações dos envolvidos na trama, pessoas que, sobrevivendo debaixo de um absurdo sistema ideológico como aquele, se barbarizaram de forma inacreditável.

Segue o trailer.


segunda-feira, 17 de agosto de 2015

MINHA MÃE É UMA SEREIA

Por que filmes ambientados nos anos 60 continuam a agradar?

Cada um tem seu palpite, mas como ponto de interseção haverá a alegação de que poucas épocas foram tão musicais na cinematografia, ainda que os filmes não sejam musicais em si.

MINHA MÃE É UMA SEREIA (Mermaids - EUA/1990) não foi produzido naquela década, mas a história é movida a uma trilha sonora que trata de fazer entrar na mente e no coração, mesmo que por osmose, o roteiro pretendido.

Como mais um indicativo desta melodiosa resenha, temos como protagonista Cher, multiartista que há anos passeia pelo teatro e pelos estúdios de cinema e música, obtendo sucesso em quase tudo o que faz (o que não é exceção neste filme).

Ela encarna Rachel Flax, uma avançadíssima mãe solteira que tem duas filhas no no mínimo curiosas: Charlotte (Winona Ryder, no seu grau máximo de beleza) e Kate (Christina Ricci, no seu primeiro papel no cinema). 

Charlotte quer ser freira a todo custo (e sua família é judia...), mas se divide entre orações e desejos proibidos por um rapaz que dirige o ônibus escolar - além da vontade de conhecer seu pai biológico. Já Kate sonha em ser nadadora, ou no mínimo campeã de apneia subaquática, modalidade que ela treina incessantemente na banheira de casa.

Rachel tem o costume de mudar de cidade cada vez que se mete em encrencas, todas advindas de relacionamentos amorosos complicados. 

Apontando ao acaso no mapa dos EUA, a família se muda para um pequeno porto em Massachussetts, onde todo o enredo se passa.

É claramente perceptível que uma família tão incomum não chamaria a atenção dos moradores, entre eles o comerciante Lou, por quem Rachel se apaixona.

E é envolvendo a paixão cada vez mais sólida entre os dois, a ambivalência mental de Charlotte e as peripécias de Kate dentro d´água que temos um filme memorável. 

Winona Ryder foi indicada ao Globo de Ouro de Melhor Atriz Coadjuvante por seu papel neste filme.

DE 0 A 10 = NOTA 9

Abordando desde o assassinato de John Kennedy a uma introdução à teologia cristã, este filme diverte e emociona.

É um deleite ver duas excelentes atrizes (e protótipos da beleza armênia - Cher - e judia - Winona) desempenhando um trabalho que discute as mágoas familiares, o abandono, a paternidade etc, sem ser lacrimoso.

Pelo contrário: MINHA MÃE É UMA SEREIA é a atestação mais firme de que crescer (fisica e psicologicamente) é um ônus tão engraçado quanto dramático.

Clipe da canção tema do filme, interpretada por Cher, o que inclui algumas cenas.   


quinta-feira, 13 de agosto de 2015

ZONA DE RISCO

Quando a Coreia do Sul resolveu marcar seu território no mapa da cinematografia, o fez com um apetite insaciável.

Oldboy, Mother e Poesia, entre outros, são exemplos de premiadas produções ali feitas, sendo amostras dos mais conhecidos filmes de uma nova escola do cinema, que possui um amplo leque de temáticas, mas praticamente todas elas trazidas à grande tela por meio de roteiros sóbrios e caracterizados pela dramaticidade mais crua possível (até mesmo um pouco exagerada, frequentemente).

No entanto, por uma ironia de conceituação ainda nebulosa, não existem muitas produções que abordem um dos aspectos mais propalados na inteligência universal quando o assunto é Coreia: a profunda divisão ideológica - e geográfica - que este país ainda vivencia.

Temos então as Coreias do Norte e do Sul. A primeira, comunista; a segunda capitalista. Sim, estamos perante a última fronteira explícita da Guerra Fria, que volta e meia chega aos noticiários na pessoa de Kim Jong Un, o herdeiro da dinastia comunista que governa a Coreia do Norte e insiste em afirmar sua superioridade bélica, ameaçando fritar atomicamente seu vizinho-irmão do Sul, os EUA e quem mais se meter no seu trajeto.

Boas razões, então, para assistirmos a ZONA DE RISCO (JSA/Gongdonggyeongbiguyeok jeieseuei - Coreia do Sul/2000).

O filme narra um incidente noturno na fronteira entre os dois países, onde o sargento sul-coreano Lee sai ferido após uma troca de tiro em que dois soldados da Coreia do Norte morrem. 


Na tentativa de esclarecer logo o caso e pôr fim ao crescente clamor por uma guerra total (naquela região do mundo, praticamente basta um soldado sacudir uma pedra na cabeça de um oponente para tal frenesi ser detonado), o exército da Coreia do Sul inicia as investigações unilateralmente.

Na contagem das balas que perfuraram os corpos de todos os envolvidos - vivos e mortos - e das que ainda restaram no armamento presente, a conta não fecha, pois uma bala a mais é encontrada.

Suspeitando-se de que terceiras pessoas estariam no local no dia e na hora do tiroteio, uma comissão independente de investigação, formada por membros suíços e suecos (nações beligerantemente neutras em qualquer instância), assume o inquérito, levando-os a descobrir, passo a passo, que muito mais gente está envolvida no episódio e cujos interesses não são tão claros.

Nomeado para o Urso de ouro do Festival de Berlim de 2001.


DE 0 A 10 = 8,5

Trama muito bem elaborada e eletrizante.

A fotografia tem seus momentos poéticos, refletindo o sentimento de alguns dos personagens, os quais embora comprometidos no esforço de guerra, sonham com a reunificação da pátria.

O trabalho de montagem do roteiro deve ter sido muito trabalhoso, pois a cronologia parece meio dispersa de início, mas não há nada que venha a comprometer a trama em si.

Concernente a se entender as doutrinações políticas atreladas ao tema, é uma ótima oportunidade para tal objetivo.

Por fim, a sigla JSA, que aparece no título original do filme, é o acrônimo em inglês para Joint Security Area, que é como se denomina um setor da Zona Desmilitarizada, que abrange por completo a fronteira entre as duas Coreias. 

Temos o trailer em espanhol.


segunda-feira, 10 de agosto de 2015

PERSÉPOLIS


O que tem a ver a República Islâmica do Irã com desenhos animados?

Se levarmos em consideração PERSÉPOLIS (Persepolis - França/2008), muita coisa.

Foi por meio deste recurso que Marjane Satrapi, no seu ofício de diretora, realizou um trabalho autobiográfico e mostrou ao mundo um panorama nem tanto desconhecido do seu país de nascimento (hoje ela reside na França), apenas tornando temas tão sérios e intrínsecos à história daquela vetusta nação mais disponível para o grande público.

A trama é centrada na história da pequena Marjane, uma menina que cresce numa família de classe média iraniana antes da Revolução Islâmica de 1979, sonhando em ser uma profeta de Deus e mudar o mundo. 

Ser classe média no Irã, naquela época, em tese, significava estar alinhado com o governo do xá Reza Pahlevi, que ocidentalizou o país e aboliu instituições que representavam, na sua ótica. um atraso à modernização, o que foi feito muitas vezes de forma arbitrária.

Por esta razão, muitos cidadãos medianos, ou mesmo ricos, não gostavam de Reza Pahlevi, que na hora de descer o sarrafo não poupava nem que havia sido seu aliado, realidade que tocou impiedosamente o lar de Marjane. 

De logo, ela cresce num ambiente onde o xá é tido como um mandatário tirano, o que fomenta mais ainda o desejo da pequena garota em transformar o planeta.


Com a derrubada do xá, o cotidiano da família muda, junto com o de todas as outras famílias iranianas. Para pior ou para melhor, de acordo com a ideologia que cada um segue. Todavia, todos estão esperançosos por um governo que valorize a cultura persa e rompa com o contexto de injustiça social onipresente.

Os eventos narrados a partir daí - o rompimento com os EUA, a guerra Irã x Iraque, o recrudescimento do fundamentalismo religioso - são disposto de forma linear, e Marjane oscila entre Irã e Europa, refletindo o dilema de muitos de seus compatriotas, que tiveram de optar pelo exílio, mesmo que a contragosto, para não se curvar ao severo regime político estabelecido após a Revolução de 1979.

Marjane, apesar de viver a frustração coletiva de ver um novo governo que piorou ainda mais a situação do país, alimenta continuamente sua veia revolucionária, se insurgindo contra tudo o que diz respeito ao atual quadro social. 

Prêmio do Júri do Festival de Cannes de 2007.

DE 0 A 10 = NOTA 9


Creio não existir outra maneira mais descontraída de se conhecer tão profundamente a história recente do Irã dentro do campo da Sétima Arte.

É evidente que está à disposição da plateia filmes como Argo ou Nunca Sem Minha Filha - estes transmissores da visão ocidental do assunto - além do variadíssimo acervo de filmes iranianos - muito mais intimistas e quase todos muito bons - sem contar os diversos documentários que abundam na web.

Porém, PERSÉPOLIS, que foi o nome da capital do Império Aquemênida, que reinou no que hoje é território iraniano e foi desmantelado por Alexandre, o Grande, é surpreendente, é divertido.

É único em sua espécie.

Trailer em espanhol e filme completo em português.





quinta-feira, 6 de agosto de 2015

BÁRBARA


Para o riquíssimo contexto que a divisão ideológica a qual a Alemanha viveu na Guerra Fria sugere, não temos visto a Sétima Arte exibir muitos frutos que retratem este apaixonante assunto - pelo menos aqui no Brasil não temos uma variedade sobre isso.

BARBARA (Barbara - Alemanha/2012) traz um alento àqueles que buscam entender com razoável exatidão como a República Democrática Alemã (RDA), em sua efêmera existência como Estado, tratava seus cidadãos, reforçando a real necessidade de os alemães entenderem a si mesmos.

E Barbara é uma médica, lá pelo início dos anos 80, lotada em Berlim Oriental, a capital da RDA, cidade na qual não permanece por muito tempo.

Em razão de ter tentado um visto para partir do país (o que, em se tratando de profissionais gabaritados, como é o caso de Barbara, não era algo muito bem visto), ela recebe como punição uma transferência a trabalho para uma cidadezinha afastada, na costa do Mar Báltico.

Visivelmente contrariada - sentimento que parece que ela propositalmente não faz a menor questão de ocultar - lida com todos ao seu redor de forma, digamos, profissional, um eufemismo para um comportamento arrogante. Seja com superiores, inferiores, vizinhos, pacientes, Barbara destila rancor...

Paralelamente, é vigiada pela Stasi (polícia política da RDA), que a submete a revistas-surpresa humilhantes, o que não a impede de ainda manter contato com seu namorado oculto, que de vez em quando visita furtivamente a vila onde vive Barbara, se encontrando com ela nos bosques ou em praias desoladas. Ele a ajuda, por meio de pequenas somas de dinheiro e mapas rabiscados em pedaços de papel, a elaborar um plano de fuga via mar.

Mas sua autodefesa começa a ser minada quando ela conhece Stella, uma jovem problemática, ingressa num reformatório para doutrinação política e que sofre abusos de diversas naturezas. E empenhada em ajudar a garota, ao mesmo tempo em que um colega de profissão insiste em conhecê-la melhor, Barbara passa a compreender que sua presença naquele lugar não é acidental.

Escolhido para representar a Alemanha no Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2013, tendo ganhado o Leão de Prata de Melhor Direção no Festival de Berlim daquele mesmo ano.


DE 0 A 10 = NOTA 9

O processo de descoberta do alter ego que Barbara passa é lento, mas não resvala numa maçante reflexão sem sentido sobre o papel dela no mundo ao seu derredor.

Ela reluta em aceitar os fatos que vão surgindo em sua vida de ostracismo, e esta resistência torna o filme interessante, na medida em que quanto mais Barbara tenta afirmar as convicções que a nortearam por toda vida, mais ela percebe que seu maior algoz não é o regime político de seu país, mas seu próprio ser.

Uma boa fotografia, um bom enredo, enfim, um bom filme.

Ainda para ser descoberto por muita gente.

Trailer.