segunda-feira, 7 de setembro de 2015

STALKER

Atualmente, o gênero ficção científica não detém mais a flamejante atração de outrora.

Alguns representantes atuais - Sob a Pele e Interestelar, por exemplo - têm reacendido o fascínio por este tipo de filme, que costumava aguçar os sentidos e criar imagens de um potencial futuro onde muito do diapasão disposto não dependeria de ações e sequer do pensamento humano, mas seriam resultados diretos do antigo querer do nosso âmago em gerar uma sociedade perfeita.

Daí a denominação alternativa que muitos críticos dão a esta vertente cinematográfica - ficção futurista, a se considerar a epistemologia como pilar sine qua non de nossa natural evolução.

STALKER (Stalker - URSS/1979), inspirado no romance Piquenique à Beira da Estrada, dos irmãos Strugatsky, trabalha esta possibilidade de um modo esplendoroso, pois como um deleitoso adicional, mescla elementos filosóficos e psicológicos a uma trama sem paralelo.

Um meteoro cai numa região afastada de um país não revelado. A área, batizada de "Zona", é rapidamente isolada pelo governo e se torna virtualmente intransponível, com vigilância ostensiva.

Fala-se que aqueles que ingressam na Zona passam por uma interação especial com aquele ambiente, e dois homens, conhecidos apenas como Escritor e Professor, desejam conhecê-la de perto, ainda mais quando se sabe que aquele que o consegue realizará, lá dentro, todos os seus desejos mais íntimos, ao adentrar num recinto específico - o Quarto.

Um stalker (palavra inglesa para "perseguidor", no sentido de alguém que sempre fica de tocaia) é procurado por Escritor e Professor (o primeiro, carente de inspiração; o segundo, buscando novos achados científicos) já que somente ele saberia o acesso para adentrar na Zona. Assim, o grupo efetivamente concretiza o plano, encarando uma experiência que jamais acreditariam viver.

Prêmio do Júri Ecumênico do Festival de Cannes de 1980.

DE 0 A 10 = NOTA 10!

O brilhantismo de STALKER é expor a inafastável sinergia entre o conceito real e a metáfora de todas as manifestações que concebemos em nosso meio circundante.

O mundo "real", nesta obra, é opressor e impessoal, o que bem se retrata na fotografia usada, com filtros quentes e bicolores, apresentando lugares desolados e alienantes, ao mesmo tempo em que habitado por diversas espécies da fauna humana, a qual - conforme se atestaria - falhou em sua tentativa de formatar um planeta bom para se viver.

Então, o que seria a Zona, que na película se mostra colorida, vasta e variada em paisagens?

Quando se sugere a possibilidade de uma passagem, devendo os candidatos empreenderem a ativa obrigatoriedade de executá-la, a conotação ganha asas de longos remígios.

Seria o Céu, onde as dores desapareceriam e as lágrimas cessariam, já que o meteoro representaria a intervenção divina em abreviar o processo de destruição desta hipotética Pangeia detonado por nós mesmos...

Seria outro planeta, um catalisador final para a remissão do homem, como uma "segunda chance" para se tentar acertar e construir um meio antropológico edificante, e não autofágico...

Quem sabe um universo paralelo, disponível a qualquer tempo, em qualquer lugar, como um delivery de fast food, no qual todos poderiam resgatar sua condição de ser reflexivo - ou mais ainda, dado que entrando no Quarto, os sonhos se tornam reais...

Talvez tudo isso - ou coisa outra ainda não captável, pois uma quase-miríade de referências bailam nesta fantasia (desde um trecho do livro bíblico de Daniel até excertos de Shakespeare são proferidos), o que demonstra a amplitude do enredo.

Um filme para sempre, magistral, em que Andrei Tarkovski, mais uma vez, reafirmou seu nome como um dos melhores diretores soviéticos.

E apenas a termo de curiosidade:

1 - Grande parte das filmagens teve lugar em uma usina química desativada em Jägava, na Estônia,  o que justificou o fato de muitos integrantes do elenco, como também o diretor Tarkovski, terem morrido de câncer anos mais tarde;

2 - A trilha sonora é assinada pelo genial Eduard Artemyev, que colaborou com Tarkovski em outras realizações, como Solaris e Sibiriada, este último um filme que estou tentando ver há muito tempo. 

Em STALKER, Artemyev utilizou recursos psicodélicos aliados a solos de tar, um milenar instrumento de cordas da Ásia Central.

Seguem abaixo os links para o trailer em inglês...

https://www.youtube.com/watch?v=GM_GOpfEQUw

... o tema de Stalker...

https://www.youtube.com/watch?v=pP1QXKbhqr4

... e o tema de Sibiriada, este como sendo um dos soundtracks mais belos que já ouvi.

https://www.youtube.com/watch?v=sJj9y4t9UnU

(Resenha dedicada a meu pai, entusiasta de filmes de ficção científica).

2 comentários:

  1. Interessante!! Vou colocar esse na lista para assistir tb. Bela crítica... gostei!

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    1. Muito obrigado, Isamara! Quando assistir, se possível, vou querer saber sua impressão também.

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