Alguns representantes atuais - Sob a Pele e Interestelar, por exemplo - têm reacendido o fascínio por este tipo de filme, que costumava aguçar os sentidos e criar imagens de um potencial futuro onde muito do diapasão disposto não dependeria de ações e sequer do pensamento humano, mas seriam resultados diretos do antigo querer do nosso âmago em gerar uma sociedade perfeita.
Daí a denominação alternativa que muitos críticos dão a esta vertente cinematográfica - ficção futurista, a se considerar a epistemologia como pilar sine qua non de nossa natural evolução.
STALKER (Stalker - URSS/1979), inspirado no romance Piquenique à Beira da Estrada, dos irmãos Strugatsky, trabalha esta possibilidade de um modo esplendoroso, pois como um deleitoso adicional, mescla elementos filosóficos e psicológicos a uma trama sem paralelo.
Um meteoro cai numa região afastada de um país não revelado. A área, batizada de "Zona", é rapidamente isolada pelo governo e se torna virtualmente intransponível, com vigilância ostensiva.
Fala-se que aqueles que ingressam na Zona passam por uma interação especial com aquele ambiente, e dois homens, conhecidos apenas como Escritor e Professor, desejam conhecê-la de perto, ainda mais quando se sabe que aquele que o consegue realizará, lá dentro, todos os seus desejos mais íntimos, ao adentrar num recinto específico - o Quarto.
Um stalker (palavra inglesa para "perseguidor", no sentido de alguém que sempre fica de tocaia) é procurado por Escritor e Professor (o primeiro, carente de inspiração; o segundo, buscando novos achados científicos) já que somente ele saberia o acesso para adentrar na Zona. Assim, o grupo efetivamente concretiza o plano, encarando uma experiência que jamais acreditariam viver.
Prêmio do Júri Ecumênico do Festival de Cannes de 1980.
DE 0 A 10 = NOTA 10!
O brilhantismo de STALKER é expor a inafastável sinergia entre o conceito real e a metáfora de todas as manifestações que concebemos em nosso meio circundante.
O mundo "real", nesta obra, é opressor e impessoal, o que bem se retrata na fotografia usada, com filtros quentes e bicolores, apresentando lugares desolados e alienantes, ao mesmo tempo em que habitado por diversas espécies da fauna humana, a qual - conforme se atestaria - falhou em sua tentativa de formatar um planeta bom para se viver.
Então, o que seria a Zona, que na película se mostra colorida, vasta e variada em paisagens?
Quando se sugere a possibilidade de uma passagem, devendo os candidatos empreenderem a ativa obrigatoriedade de executá-la, a conotação ganha asas de longos remígios.
Seria o Céu, onde as dores desapareceriam e as lágrimas cessariam, já que o meteoro representaria a intervenção divina em abreviar o processo de destruição desta hipotética Pangeia detonado por nós mesmos...
Seria outro planeta, um catalisador final para a remissão do homem, como uma "segunda chance" para se tentar acertar e construir um meio antropológico edificante, e não autofágico...
Quem sabe um universo paralelo, disponível a qualquer tempo, em qualquer lugar, como um delivery de fast food, no qual todos poderiam resgatar sua condição de ser reflexivo - ou mais ainda, dado que entrando no Quarto, os sonhos se tornam reais...
Talvez tudo isso - ou coisa outra ainda não captável, pois uma quase-miríade de referências bailam nesta fantasia (desde um trecho do livro bíblico de Daniel até excertos de Shakespeare são proferidos), o que demonstra a amplitude do enredo.
Um filme para sempre, magistral, em que Andrei Tarkovski, mais uma vez, reafirmou seu nome como um dos melhores diretores soviéticos.
E apenas a termo de curiosidade:
1 - Grande parte das filmagens teve lugar em uma usina química desativada em Jägava, na Estônia, o que justificou o fato de muitos integrantes do elenco, como também o diretor Tarkovski, terem morrido de câncer anos mais tarde;
2 - A trilha sonora é assinada pelo genial Eduard Artemyev, que colaborou com Tarkovski em outras realizações, como Solaris e Sibiriada, este último um filme que estou tentando ver há muito tempo.
Em STALKER, Artemyev utilizou recursos psicodélicos aliados a solos de tar, um milenar instrumento de cordas da Ásia Central.
Seguem abaixo os links para o trailer em inglês...
https://www.youtube.com/watch?v=GM_GOpfEQUw
... o tema de Stalker...
https://www.youtube.com/watch?v=pP1QXKbhqr4
... e o tema de Sibiriada, este como sendo um dos soundtracks mais belos que já ouvi.
https://www.youtube.com/watch?v=sJj9y4t9UnU
(Resenha dedicada a meu pai, entusiasta de filmes de ficção científica).


Interessante!! Vou colocar esse na lista para assistir tb. Bela crítica... gostei!
ResponderExcluirMuito obrigado, Isamara! Quando assistir, se possível, vou querer saber sua impressão também.
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