A humanidade nunca pagará a dívida moral que possui para com o continente africano. E essa verdade se torna superlativa quando nos deparamos com a história de Komona.

A África foi retalhada entre as potências europeias desde o século XVI, servindo de fornecedor de mão-de-obra escrava e matéria-prima para aquelas nações. Durante muitíssimo tempo se seguiu esta usurpação, até que em meados do século XX se iniciou o processo de descolonização, quando as possessões, uma após a outra, foram conquistando a independência.
O que parecia ser uma solução se traduziu na continuação daquele martírio. Quando dividiram o continente, os europeus não se preocuparam em respeitar as fronteiras tribais, às vezes agrupando num mesmo território clãs mortalmente inimigos, enquanto que um mesmo povo poderia restar separado por dois ou até três países distintos.
Assim, temos a Nigéria, com dezenas de etnias dentro de si, algumas rivais juradas. Por outro lado, tribos como os tutsis ficaram espalhadas entre Ruanda, Burundi e Tanzânia.
Além disso, os ex-donos do pedaço foram embora sem deixar a mínima infraestrutura para os nativos começarem uma vida digna sob a emancipação política.
O caldeirão em ebulição que foi tampado à força por anos, com a saída dos metropolitanos, hoje explode pelos lados.
E o que a citada Komona tem a ver com isso?
Tudo.
Em A FEITICEIRA DA GUERRA (Rebelle - Canadá/2012), Komona é uma jovem de seus 13 anos, que vive com os pais tranquilamente, em algum lugar da beligerante África Subsaariana (insuspeitadamente, parece ser na República Democrática do Congo, país que ostentou o pior IDH do mundo em 2014, quer dizer, um dos cantos mais miseráveis do planeta, mas ao omitir o paradeiro desta história, o diretor Kim Nguyen procurou reforçar a ideia de que a realidade que o filme transmite é transnacional, o que foi, em minha opinião, uma escolha acertada).
Tudo está em paz, até que um grupo de rebeldes invade a aldeia, massacra vários adultos e sequestra os jovens e adolescentes para serem usados como soldados-mirins, sendo que os do sexo feminino, invariavelmente, servem de escravos sexuais. O batismo de fogo de Komona, durante esta abrupta mudança de vida, é particularmente cruel.
Já embrenhada na selva com a guerrilha, obrigada a beber a seiva de uma espécie de árvore, ela sofre de alucinações, manifestação esta que é encarada pelos comandantes como um poder sobrenatural inerente à menina, que passa a ter o status de feiticeira, o que, curiosamente, a poupa de atrocidades maiores.
Mas a situação de Komona não permanece confortável - afinal, ela está no meio de uma guerra, e ao se aproximar de um jovem albino conhecido como O Mago, seu destino se torna uma incógnita.
Vencedor do Urso de Prata de Melhor Atriz no Festival de Berlim de 2012.
DE 0 A 10 = NOTA 9
Desnecessário pontuar que o filme é muito realista, e sem qualquer anestésico expõe este universo paralelo ao qual os não-africanos viraram as costas.
A sensação de que as intermináveis guerras tribais são um caso perdido, infelizmente, ganha todo combustível nesta tremenda experiência cinematográfica.
Mas a obra tem seus lampejos de beleza, sobretudo se contarmos com o fato de que a relação entre uma alegada feiticeira e um suposto mago tem uma força imaterial, o que não requer nenhuma seiva de árvore nem qualquer mágica.
A trilha sonora, assinada pelo angolano Artur Nunes e outros, é um espetáculo à parte.
Trailer logo abaixo.


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