terça-feira, 26 de maio de 2015

AS FLORES DE KIRKUK

Os curdos são o maior povo sem nação no mundo.

São 40 milhões de pessoas espalhadas majoritariamente por quatro países: Irã, Iraque, Síria e Turquia. Em alguns lugares, são perseguidos; noutros, são tolerados e até possuem certa autonomia. Mas, em última análise, não possuem um país para chamar de seu.

Tudo começou após a 2ª Guerra Mundial, quando as potências da época desenharam as fronteiras atuais do Oriente Médio. Na partição do bolo, surgiram a Jordânia, a Síria, o Iraque, o Irã, Israel.

Os curdos ficaram de fora do rateio, pois além de seu território não possuir muitos recursos naturais que interessassem, não havia consenso entre suas tribos sobre quem iria governar o país independente.

Resultado: o Curdistão foi engolido pelos países vizinhos, e até hoje os curdos penam por isso. Suprema injustiça, pois eles não são nem árabes, nem turcos, nem persas, além de falarem um idioma muito distinto de todos os seus vizinhos e terem costumes muito peculiares.

(Em tempo = Embora não seja ativista engajado, defendo irrestritamente a autodeterminação do Curdistão e a fundação de um Estado curdo soberano, e por isso posto como homenagem a bandeira curda e uma canção popular deles que muito me agrada). 




AS FLORES DE KIRKUK (I Fiori di Kirkuk/Golakani Kirkuk - Itália, Iraque/2010) traz certa luz a este tema inexplicavelmente escanteado da cinematografia mundial de mais evidência.

Najla é uma médica iraquiana, etnicamente árabe, que durante uma especialização em Roma volta a seu país de origem em busca do noivo, o curdo Sherko, que foi seu colega de faculdade na Itália.

Historicamente, ambos os povos não são muito amistosos entre si, o que não impede que Najla e Sherko nutram uma forte relação amorosa.

Mas o retorno da médica se dá exatamente na época em que o governo iraquiano (meados da década de 80) decide aplicar uma "solução final" aos curdos, tal qual os nazistas fizeram aos judeus: deportações, confinamentos em campos de concentração e prisões, assassinatos de líderes políticos e outras ações são tomadas pelo exército iraquiano em larga escala.

Najla se utiliza da profissão para, inspirada no exemplo de Sherko (que se tornou membro da resistência), ajudar na causa curda, o que faz com que ela entre em choque direto com sua família e superiores hierárquicos.

E como se a situação já não estivesse por demais embaralhada, um oficial do exército iraquiano se apaixona por Najla e passa a perseguir Sherko.

DE 0 A 10 = NOTA 9

O mérito-mor do filme é abordar um assunto que, como já foi dito, ainda é muito mal explorado na telona.

Os curdos têm sofrido por décadas debaixo de cada regime que os governa, chamando a atenção o tratamento que receberam durante o governo de Saddam Hussein, quando eles quase sumiram por completo do mapa do Iraque, o que esta obra em parte retrata.

Merecem mais visibilidade.

Najla encara o conflito com uma bravura que rivaliza com a do próprio Sherko, o que, malgrado o fato de a mesma amar um curdo, comprova que nem todos os iraquianos eram cegamente fiéis a Saddam e nem também apoiavam as atrocidades perpetradas contra aquela minoria.

O filtro do filme usa cores quentes, um tom marrom, quase ocre, o que acentua a aridez tanto da história quanto da fotografia.

Segue o trailer!




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