quarta-feira, 20 de maio de 2015

TANGERINAS

Em minha opinião, a disputa pelo Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, neste ano de 2015, foi bem mais acirrada do que em anos anteriores. 

Meu favorito para ganhar a estatueta vinha da Rússia - Leviatã - e como segunda opção eu apostava no estoniano Tangerinas. Também captaram minhas atenções o polonês Ida e Timbuktu, da Mauritânia (!). Correndo por fora, Relatos Selvagens, da Argentina.

No final, deu Ida. Mas todos os filmes são dignos de nota, e quiçá de possíveis resenhas aqui na "Terceira Metade".

Mas hoje me concentro em Tangerinas.

Josef Stalin, durante o período em que esteve à frente da União Soviética (da década de 20 até sua morte, em 1953), bolou uma estratégia para governar melhor aquele país-quase-continente: mandou muitos (mesmo) russos morarem nas outras 14 repúblicas que compunham a então URSS, diluindo o componente autóctone de cada país satélite, e para embolar mais ainda a história toda, deportou não-russos para outros lugares bem longe de onde estavam.

Os objetivos eram: 1 - Diminuir o nacionalismo em cada república soviética, à medida em que seus nativos se viam cada vez mais espalhados pela vasta extensão territorial que se tinha; e 2 - Fortalecer a hegemonia da Rússia, maior e indiscutivelmente mais poderosa das 15 repúblicas da União Soviética, em todas as instâncias.

Deu-se a esta jogada geopolítica o apelido de "política do liquidificador".

Com o fim da URSS, em 1991, o liquidificador soviético explodiu. Guerras étnicas sacudiram e ainda sacodem aquele pedaço do planeta, onde chechenos se estapeiam com russos, os russos com os georgianos, estes com os abecásios, os armênios com os azeris e por aí vai. 

Questiona-se até onde Stalin não tinha a real intenção de tumultuar seu império se um dia o comunismo viesse a cair, o que efetivamente aconteceu. De toda sorte, este foi mais um de seus legados perversos, e até hoje ninguém sugere uma solução segura para os conflitos existentes.  

Feito este breve introito, fica mais fácil degustar as TANGERINAS (Mandariinid - Estônia/2013).

No filme, que se passa no ano de 1992, Ivo, um estoniano, descende de uma família que há décadas habita a Abecásia, província separatista da Geórgia, uma das ex-repúblicas soviéticas. Ivo cultiva tangerinas numa remota área rural quando a guerra estoura, querendo os abecásios a independência, querendo os georgianos o domínio sobre a Abecásia.


Certo dia, Ivo salva, ao mesmo tempo, dois inimigos bastante feridos: um georgiano e um mercenário checheno que luta a favor dos abecásios. Abriga-os em sua própria casa, cuidando da saúde de cada um deles. 

A convivência entre os personagens vai se inflamando cada vez mais, enquanto a guerra em si se aproxima do local em que estão, com consequências imprevisíveis.

Prêmio de melhor público no Festiva de Cinema de Varsóvia em 2013.

DE 0 A 10 = NOTA 9

Para se ter uma ideia de como se tratou de uma guerra complicada, quatro línguas diferentes são ouvidas no mesmo filme.

Nesta forte obra do cinema, se analisa quem são os vencedores e perdedores em uma guerra, seja ela qual for. E a resposta não tarda a vir: todos ganham e perdem ao mesmo tempo, pois dependendo do que intentamos ganhar, sacrificamos sem sentido muito  de nós mesmos.

As interpretações são poderosas. A fotografia, sem paralelos. A trilha sonora, fabulosa. 

E o final... assista para saber.

Abaixo, o trailer em espanhol.






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