Olá, queridos leitores!
Pensar em escrever sobre cinema hoje tem seus desafios, a depender do objetivo de quem o faça.
Num assunto onde já muito se tem registrado, paralelamente existe a certeza da inesgotabilidade que a própria matéria nos traz e que, poética e convenientemente, vem acompanhada de uma singela plaquinha, talvez em madeira carcomida e pintada com muito esmero, com os dizeres "Sempre cabe mais um".
E então entro na brincadeira.
Digamos que o mundo do cinema foi dividido em dois hemisférios: um pertencente aos assim denominados filmes comerciais, sucessos de público e bilheteria, blockbusters, entre outras patentes; e outro ocupado pelos "filmes de arte", rótulo intrigante pela sua redundância, porque se fazer cinema é exercer a Sétima Arte em essência primeira, como se conceber um filme que não é artístico em si mesmo?
Vivemos num país onde existe um exorcismo conceitual quando se discutem visões coexistentes dentro de um mesmo tema. Como assim? Para uma opinião se firmar, é imperioso neutralizar o que o/um ponto de vista dissonante apresenta. Muitas vezes, não há o menor interesse em se avaliar como aquela ideia oposta surgiu, o que ela de fato procura dizer, quais seus eventuais benefícios - caso hajam. Fenômeno comum em discussões políticas, religiosas, esportivas.
Tal estratagema não funciona muito bem no quesito 'cinema'. Dizer que filmes comerciais são ruins apenas porque visam lucro, ou que "filmes de arte" não se prestam a entreter porque obrigam a pensar em vez de relaxar a mente, são vereditos no mínimo equivocados.
E sim, não são poucos que pensam desta maneira, infelizmente, como se estivéssemos perante um Brasil x Argentina na grande tela, onde um empate é condição extraterrena. Como se fosse tabu declarar preferência por uma vertente cinematográfica e manter um "namorico" com outra tendência. Como se não se pudesse admitir que, em verdade, não há limites para se exercer o ofício da paixão por esta modalidade fascinante de comunicação de massa.
Saio desta peleja. Escolho uma outra metade.
A Terceira Metade da Tela.
Resolvo optar por escrever sobre filmes em geral, mas aqueles filmes que tanto comerciais quanto "artísticos" estão hoje na periferia da percepção coletiva.
Filmes que, ainda que recentes, se empoeiram diante da velocidade com que o cinema se reinventa, quando mal tomamos fôlego de uma novidade e algo ainda mais novo já nos surpreende.
Filmes que em algum momento foram até bem analisados pela crítica especializada (onde, claro, não me encaixo), mas sobre os quais já não se ouve falar tanto por aí afora.
Filmes que amei, que vi, que revi, que vivi e que agora vou reviver.
Ademais, tenhamos em mente que História é fazer cinema, e Cinema é fazer história. E reconhecer esta simbiose é um dever supra-ideológico.
Ou como desprezar trabalhos como Tulpan, a primeira grande produção do Cazaquistão pós-independência, que fez o país ser mais conhecido, país esse que, por diversas razões, muito raramente produz algum trabalho que ultrapassa suas fronteiras?
Como ignorar A Imagem que Falta, onde se retratou, entre outras coisas, a destruição da arte cinematográfica no Camboja por conta de um determinado regime político, onde o filme em questão é um grito desesperado contra o esquecimento da beleza da tela grande (ou, no caso citado, da ausência desta beleza)?
Ou ainda Yol, filme-denúncia dos anos de chumbo da Turquia, que antes de ganhar a Palma de Ouro do Festival de Cannes precisou que seu original fosse contrabandeado para fora do seu país?
Por estes e outros épicos (assim os conceituo), me destino a escrever sobre eles.
E o faço sobre a Terceira Metade da Tela.
Não pretendo aqui reinventar a roda, ousar uma crítica alternativa, mesmo porque algumas linhas poderão ter um quê de déjà-vu.
Somente intento expor como cada obra falou comigo, o que me trouxe à flor da pele da sentimentalidade, como percebi mudar o cosmos que me circunda com ao menos a lembrança a fala de um personagem, uma cena marcante, uma trilha sonora inspiradora...
Aposto até, quem sabe, numa catarse, em face do minimalismo de opinião que tem tomado certas rodas informais de discussão sobre o cinema atual.
E por meio desta carta de intenções, convido os interessados a vir comigo, se assim quiserem.
Quer gostem do que vão ler, quer não, ficarei muito gratificado se ao menos lerem.
Mas se ainda assim não compartilharmos desta metade, já me sinto feliz por ela, de alguma forma, ter saído do campo da abstratividade.
Precisava que ela nascesse.
E agora chegou o momento.
Muito obrigado a todos,
Geisel Ramos
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