
O que tem a ver a República Islâmica do Irã com desenhos animados?
Se levarmos em consideração PERSÉPOLIS (Persepolis - França/2008), muita coisa.
Foi por meio deste recurso que Marjane Satrapi, no seu ofício de diretora, realizou um trabalho autobiográfico e mostrou ao mundo um panorama nem tanto desconhecido do seu país de nascimento (hoje ela reside na França), apenas tornando temas tão sérios e intrínsecos à história daquela vetusta nação mais disponível para o grande público.
A trama é centrada na história da pequena Marjane, uma menina que cresce numa família de classe média iraniana antes da Revolução Islâmica de 1979, sonhando em ser uma profeta de Deus e mudar o mundo.
Ser classe média no Irã, naquela época, em tese, significava estar alinhado com o governo do xá Reza Pahlevi, que ocidentalizou o país e aboliu instituições que representavam, na sua ótica. um atraso à modernização, o que foi feito muitas vezes de forma arbitrária.
Por esta razão, muitos cidadãos medianos, ou mesmo ricos, não gostavam de Reza Pahlevi, que na hora de descer o sarrafo não poupava nem que havia sido seu aliado, realidade que tocou impiedosamente o lar de Marjane.
De logo, ela cresce num ambiente onde o xá é tido como um mandatário tirano, o que fomenta mais ainda o desejo da pequena garota em transformar o planeta.

Os eventos narrados a partir daí - o rompimento com os EUA, a guerra Irã x Iraque, o recrudescimento do fundamentalismo religioso - são disposto de forma linear, e Marjane oscila entre Irã e Europa, refletindo o dilema de muitos de seus compatriotas, que tiveram de optar pelo exílio, mesmo que a contragosto, para não se curvar ao severo regime político estabelecido após a Revolução de 1979.
Marjane, apesar de viver a frustração coletiva de ver um novo governo que piorou ainda mais a situação do país, alimenta continuamente sua veia revolucionária, se insurgindo contra tudo o que diz respeito ao atual quadro social.
Prêmio do Júri do Festival de Cannes de 2007.
DE 0 A 10 = NOTA 9

Creio não existir outra maneira mais descontraída de se conhecer tão profundamente a história recente do Irã dentro do campo da Sétima Arte.
É evidente que está à disposição da plateia filmes como Argo ou Nunca Sem Minha Filha - estes transmissores da visão ocidental do assunto - além do variadíssimo acervo de filmes iranianos - muito mais intimistas e quase todos muito bons - sem contar os diversos documentários que abundam na web.
Porém, PERSÉPOLIS, que foi o nome da capital do Império Aquemênida, que reinou no que hoje é território iraniano e foi desmantelado por Alexandre, o Grande, é surpreendente, é divertido.
É único em sua espécie.
Trailer em espanhol e filme completo em português.
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