
Era uma vez um governante que percebeu que seu país estava despovoado e acreditava que se as famílias crescessem exponencialmente haveria mais chances de a nação ser próspera.
Assim, ele determinou que as mulheres não poderiam usar métodos contraceptivos, instituiu impostos para famílias com poucos filhos e premiações para as mães com mais de cinco crianças. Quem fosse pega tentando abortar e/ou colaborando com um aborto era invariavelmente detido e condenado a muitos anos de prisão.
Parece insólito, não? Mas tudo isso realmente aconteceu.
"A Terceira Metade da Tela" visita a Romênia para mostrar melhor esta história, porém sem se deter muito na veia política da coisa, mostrando um episódio fictício que ilustra bem um período o qual quase todos os romenos fazem questão de esquecer.
4 MESES, 3 SEMANAS E 2 DIAS (4 luni, 3 săptămâni şi 2 zile - Romênia/2007) se passa no ano de 1987, pouco tempo antes de o regime comunista cair de podre em quase todo o Leste Europeu.
Gabitsa e Otilia são duas estudantes universitárias vindas do interior e dividem um quarto no alojamento da sua faculdade em Bucareste. Gabitsa engravidou sem desejar, e pede ajuda a Otilia para que, juntas, encontrem um médico para realizar um aborto clandestino.

Graças à sugestão de uma conhecida, elas chegam a Bebe, um homem estranho, que realiza o procedimento que Gabitsa quer fazer.
As amigas alugam um quarto num hotel para executar o plano, e Otilia, para ajudar Gabitsa, tem que negociar a cirurgia com Bebe, que declara que só faz o aborto se a gravidez for de até três meses, o que não é o caso.
E é sob a sombra da polícia, da intransigência de Bebe e da desconfiança do seu namorado e dos funcionários do hotel que Otilia tenta livrar Gabitsa de complicações que a situação em que está envolvida pode acarretar.
Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2007.
DE 0 A 10 = NOTA 9
Nicolae Ceausescu governou a Romênia entre os anos de 1965 a 1989.
Entre suas tresloucadas decisões, ele anunciou a proibição do aborto e prisão para todos os envolvidos, vez que queria que a população do país dobrasse no intervalo de alguns anos.
Abortos clandestinos grassavam país afora, num mercado negro de arriscadas cirurgias onde muitas mulheres preferiram morrer do que serem pegas pela Securitate, a feroz polícia política do regime.
Se há algo de humano neste impactante filme, seria apenas a fidelidade canina que Otilia possui para com Gabitsa, o que a faz se submeter a situações repulsivas para socorrer a amiga.
Todo o resto, sem dúvida, é um ciranda de degradação humana, algo que, guardada as devidas proporções que o delicado tema do aborto comporta, põe em xeque se valeria a pena uma criança vir ao mundo para viver numa sociedade tão avessa à solidariedade mútua.
Sem qualquer trilha sonora (não que eu lembre), a música bem que poderia ser o sincopado bater dos corações dos envolvidos na trama, pessoas que, sobrevivendo debaixo de um absurdo sistema ideológico como aquele, se barbarizaram de forma inacreditável.
Segue o trailer.
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