Haveria algo mais exótico do que cinema etíope?
Pois é, mas não chega a ser novidade que a Etiópia já possui uma grande tradição dentro da Sétima Arte, em parte voltada para a doutrinação política.
E é sob esta dinâmica que TEZA (Teza - Etiópia, Alemanha/2008) desponta como uma experiência agreste e marcante, discorrendo sobre uma época sombria da história do país, logo após a queda do imperador Hailé Selassié, mais conhecido como o Ras Tafari (de onde surgiu o conhecido movimento pacifista que ganhou projeção global a partir da Jamaica, sem, no entanto, ter qualquer ligação com o filme aqui abordado).
Amberber é um jovem idealista, que na década de 70 cria no marxismo como a solução para os desajustes do regime imperial que o Ras Tafari comandava. Sendo estudante de medicina, consegue uma bolsa de estudos para uma pós-graduação na Alemanha Ocidental.
Tentando se adaptar àquela sociedade tão hostil com os imigrantes, ele e outros compatriotas se dividem quando chega a notícia de que a monarquia foi derrubada por um golpe comunista.
O ano era 1974, auge da Guerra Fria, e entusiasmado com a possibilidade de, sendo um profissional altamente graduado, voltar à terra natal e ajudar na reconstrução social, Amberber assim resolve fazer, nem que para isso deixe para trás sua esposa alemã e seu filho recém-nascido.
Mas com pouco tempo trabalhado para o regime do Derg (assim era denominado o comitê central que regia a Etiópia socialista), ele presencia barbaridades ainda piores do que as do regime de Hailé Selassié.
Usado como fantoche político, Amberber se questiona se deveria ainda cultivar sua devoção filial à sua posição ideológica, pois agora é chefe de família e testemunha de que o sonho de uma sociedade igualitária na Etiópia vai morrendo dia após dia.
TEZA venceu o Festival Panafricano de Filme e Televisão de 2009.
DE 0 A 10 = NOTA 10!
O filme se inicia com Amberber já sexagenário, arcando com as consequências de suas escolhas.
Investindo em diversos flashbacks, TEZA, que significa "neblina da manhã" no idioma amárico, mostra com decisiva crueza a realidade da Etiópia antes, durante e depois do período do Derg, que foi responsável, entre outras coisas, pela política de extermínio em massa por meio da fome, que criou dentro do país bolsões populacionais em áreas não cultiváveis, para onde os opositores do regime eram deportados, atitude que futuramente despertou a solidariedade das nações mais ricas em tentar ajudar a Etiópia, onde We Are The World (lembram?) era a canção pano-de-fundo para a campanha.
Cenas dos rituais da igreja ortodoxa etíope são mostradas, o que abrilhanta ainda mais o enredo.
Hailé Selassié morreu poucos dias após o golpe. Investigações recentes comprovaram que ele foi asfixiado enquanto dormia, o que encerrou quase 3.000 anos ininterruptos (!) de monarquia etíope, que entre seus representantes teve a famigerada Rainha de Sabá, uma das esposas do bíblico rei Salomão.
Poucos filmes administram um contexto histórico tão rico como esse, o que me alimentou um sonho já existente, o de um dia conhecer de perto a gloriosa Etiópia.
Trailer em inglês.

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