No início da década de 90, talvez um pouco antes disso, uma contagiante febre pela cinematografia oriental varreu o planeta, escancarando as portas do outro lado do mundo para bons trabalhos que até hoje chamam muito a atenção dos críticos e do público.
De uma hora para outra, os cinemas se encheram de produções chinesas, vietnamitas e taiwanesas - majoritariamente - que (felizmente) iam além do show de tapas e pontapés que os filmes de artes marciais, até então os únicos representantes notórios do Extremo Oriente na Sétima Arte, mostravam impiedosamente.
LANTERNAS VERMELHAS (Dà Hóng Dēnglóng Gāogāo Guà - China, Hong Kong/1991) se destaca nesta alvissareira primeira safra, e por diversos motivos.
Primeiramente, e principalmente, pela história, baseada numa antiga peça teatral e fielmente copiada para as telas.
Anos 20. Uma ex-estudante universitária, após a morte do pai, é vendida pela madrasta para um rico senhor feudal para ser sua quarta... esposa (!)
Emancipada e arredia, ela luta para se adequar às regras na sua nova vida, enclausurada no enorme castelo de seu senhor/marido, tendo que dividir as atenções dele com as outras três concubinas, cada uma com traços físicos e temperamento bem variados.
Todas as noites, o senhor (cujo rosto nunca é exibido) tem de escolher com que esposa vai dormir, pendurando lanternas vermelhas na entrada dos aposentos da premiada, o que lhe garante privilégios e regalias (como, por exemplo, determinar o menu do almoço do dia seguinte), ao passo que quanto menos uma concubina é selecionada para aquela atividade matrimonial, mais a mesma enfrentará o desprezo de todos, inclusive dos empregados.
É óbvio que as quatro senhoras vão se esmerar por todos os meios para conseguir laçar o esposo, numa competição que constrói uma intrincada rede de intrigas e onde uma jogada mal calculada pode lançar todos numa fogueira.
Até que uma delas joga da forma mais incalculada possível.
Leão de Prata de Melhor Diretor no Festival Internacional de Cinema de Veneza de 1991.
DE 0 A 10 = NOTA 10!
Como mencionei acima, muitas razões fazem esta obra ser sui generis.
Gong Li, a protagonista, praticamente apareceu para o Ocidente com este filme. Dona de uma formosura que é quase irreal, durante anos foi estrela de nove entre dez filmes chineses, alguns muito condecorados em vários festivais. Conseguiu, inclusive, papéis em filmes americanos, como Hannibal.
O filme foi todo filmado dentro de uma edificação imperial em Shanxi, e não num cenário construído para tal fim, tendo o lugar se tornado concorrida atração turística após o sucesso do filme.
A temática imediata, claro, é a condição feminina da China naquela época, assunto tão polêmico que o filme passou um tempo proibido em seu país de origem, e a ideia central pode ser bem traduzida durante um diálogo, em certo momento do enredo:
"Acende lanternas, apaga lanternas, cobre lanternas. O que me importa? O que me importam as pessoas desta casa? São como gatos, cães, ou ratos. Mas com certeza, não são gente"
Temos aqui o trailer em inglês.

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