quinta-feira, 4 de junho de 2015

A IMAGEM QUE FALTA

Sobre o documentário A IMAGEM QUE FALTA (L´image Manquante - Camboja, França/2013), ganhador do Prêmio do Júri na Mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes de 2014, excepcionalmente deixo para que o diretor Rithy Panh fale a respeito:

"Há tantas imagens no mundo, que acreditamos ter visto tudo. Pensado tudo. Há muitos anos que procuro uma imagem que falta. Uma fotografia tirada entre 1975 e 1979 pelos Khmers vermelhos, quando dirigiam a Camboja. Claro, por si só, uma imagem não prova o crime em massa; mas faz pensar; faz meditar. Ajuda a construir a história. Procurei-a em vão nos arquivos, nos documentos, nas aldeias do meu país. Agora sei: essa imagem deve faltar; e não a procurava – não seria obscena e sem significado? Então fabrico-a. O que eu ofereço hoje não é uma imagem, ou a busca de uma única imagem, mas a imagem de uma busca: aquela que o cinema permite. Algumas imagens devem continuar a faltar, devem sempre ser substituídas por outras: nesse movimento encontra-se a vida, o combate, a pena e a beleza, a tristeza dos rostos perdidos, a compreensão daquilo que existiu; por vezes a nobreza, e até a coragem: mas o esquecimento, nunca"

DE 0 A 10 = NOTA 10, COM MUITO LOUVOR!

O que quer que eu diga a respeito deste filme não será suficiente para expressar tamanha beleza.

Sim, é verdade que a história do Camboja quando do regime comunista do Khmer Vermelho, entre os anos de 1975 e 1979, já rendeu boas produções, como o poderoso Os Gritos do Silêncio. Mas da forma como agora foi feito... 

Recriar o cenário cambojano durante um dos períodos mais sombrios do século XX utilizando bonecos de barro é de uma singeleza e elevação que dispensam maiores comentários.

O Khmer Vermelho objetivou a criação do "homem novo", aos moldes do que já pretendia Jean-Jacques Rousseau, que acreditava na corrupção do ser humano no momento em que era inserido no contexto social vigente.

Para implementar tal projeto, todos os cidadãos cambojanos foram obrigados a abandonarem as cidades apenas com a roupa que vestiam e viverem como camponeses. O país se encheu de cidades-fantasma e, sem eletricidade, viveu na penumbra dos lampiões.

Artistas, universitários, religiosos, profissionais de toda espécie e qualidade foram executados, pois a meta remontava a aristotélica "tábula rasa": uma lobotomia total na população, todos voltando ao ponto de partida, calcados nos princípios socialistas mais puros, do lugar onde tudo teve início. 

Do campo. Do barro.

O mesmo barro que agora vira arte. A mesma arte que foi satanizada pelo Khmer Vermelho.

Museus, teatros, estádios, escolas, faculdades, bibliotecas, cinemas e templos religiosos foram transformados em chiqueiros, prisões, centros de tortura. 

O dinheiro foi abolido, sendo o quase inexistente e clandestino comércio baseado no escambo. 

Todos deviam usar roupas negras. 

Para ser condenado à morte, bastava saber falar algum idioma estrangeiro, portar um livro, usar maquiagem ou óculos de grau, cantar uma canção qualquer...

A contagem do tempo foi zerada. O primeiro ano da revolução, 1975, foi rebatizado de "Ano Zero", sendo o calendário da Nova Era contabilizado a partir dele.

Tudo em prol do nascimento de uma nova forma de pensar: um pensamento que não pensa.

E à procura da IMAGEM QUE FALTA, o diretor, que perdeu a sua família inteira sob aquele governo que extrapolou todos os limites da insanidade, como um diminuto Davi perante um Golias infinitamente mais forte, lança uma pedra certeira na testa do revisionismo histórico, trazendo o Camboja de volta à vida pulsante que este antiquíssimo país sempre exaltou.

Tenho orgulho em dizer que, num dia de semana, à noite, sentado no sofá da sala, diante da tela, por cerca de duas horas, EU TAMBÉM FUI CAMBOJANO.

O trailer.


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