quinta-feira, 30 de julho de 2015

LUZ SILENCIOSA

Sinopse do filme de hoje: pai de família bem casado trai a esposa e passa o resto do tempo se digladiando contra o sentimento de culpa gerado pelo ato.

Tem tudo para ser uma perda de tempo se dispor a ver uma trama do tipo, já que até mesmo folhetins novelescos podem manejar esse caso concreto de maneira mais permeante.

Mas LUZ SILENCIOSA (Stellet Licht - México, França, Holanda/2007) tem a força de um tornado, vez que puxa do solo o juízo comum e vertiginosamente convida o espectador a mergulhar no drama que a situação escancara, sem apelar para interpretações canastronas nem para um reles conteúdo moral com um quê de "ponto final", ou traduzindo melhor, sem permitir que quem o aprecia desça à terra sequer para respirar.

A fábula se passa no seio de uma comunidade menonita do México, num lugar onde o México não fala castelhano, nem come tacos e nem é moreno de sangue asteca. 

Vemos um grupamento humano fechado em si mesmo, com uma interpretação particular das Escrituras, falando um idioma impenetrável, sem nenhum dos ícones da modernidade (salvo tratores e carros populares, usados para a agricultura e eventuais emergências, respectivamente).

Ali, Johan vive com sua mulher Esther e seus cinco filhos. Tudo normal, até que Marianne aparece em sua vida...

Prêmio do Juri no Festival de Cannes de 2007.

DE 0 A 10 = NOTA 10!

As peculiaridades deste filme são muitas.

Talvez seja até agora o único filme falado em plattdüütsch, dialeto originado do alemão medieval e que ainda sobrevive graças a apenas poucos seres humanos que vivem em comunidades isoladas do mundo atual e que o falam cotidianamente, especialmente na Alemanha, México e Paraguai, onde há comunidades menonitas.

Esta doutrina surgiu como resultado direto da Reforma Protestante, poucos anos após Lutero propor aquela revisão dogmática, sendo talvez um dos segmentos que mais buscaram se ater ao Cristianismo nos moldes originais ao tentar suplantar os cânones vaticanistas. E com a descoberta do Novo Mundo, alguns dos seus seguidores aportaram no continente americano.

Guardam uma postura ultra-conservadora dos ditames cristãos, levando a sério a abolição das influências da modernidade, onde eletrodomésticos (ou mesmo eletricidade), certos tipos de vestimenta e leitura, música secular, entre outros, são completamente proibidos. Neste sentido, lembram bastante as comunidades Amish, estas mais conhecidas do público comum, inclusive por meio da cinematografia (A Testemunha, com Harrison Ford, é um claro exemplo).

Detalhe: todos os atores escolhidos para esta obra são membros de uma comunidade verdadeiramente menonita, nenhum deles atores profissionais! 

Alto lá! Se a história se passa numa coletividade religiosa, não haveria um subproduto proselitista no tratar da questão?

A resposta é não. 

Não estamos diante de um filme cabalmente "religioso", no qual normativas eclesiásticas irão nortear a crise existencial em que Johan se meteu. Claro, a bússola que o orienta na sua procura pela metanoia tem matiz essencialmente espiritual, todavia o interessante é que esse processo não se esgota numa mera releitura de versículos bíblicos (e surpreendentemente, isso sequer ocorre no filme), até porque Johan já conhecia muitíssimo bem o posicionamento divinal antes de cometer o deslize. 

Também não é um libelo à permissividade humanista, pois o conflito íntimo detonado pelo adultério é suficientemente esmagador para impedir Johan de levar a cabo qualquer plano de dissidência às instituições que ele sem querer submete a julgamento (família e Igreja). Não é uma instigação a um carpe diem!, digamos.

A discussão vai mais além.

Johan, com estes caminhos antagônicos diante dele, remete o espectador ao limiar da conceituação mais basilar do que vem a ser consciência ética, uma dimensão que deverá ser desimbuída de conotações religiosas, filosóficas e afins.

O silêncio, este o quiçá senhor protagonista do filme, pode até incomodar a plateia (falo sério, não o assista se estiver nem que esteja um pouquinho de nada cansado), mas é nas entranhas deste estado (meta)físico que Johan será Johan, apresentado à sua matéria-prima, entregue a seus instintos e ao deslinde da autocontemplação.    

A fotografia, ampla e sem horizontes delimitadores, ajuda a reforçar a metáfora pretendida pelo filme - mostrar o diminuto lugar do homem neste cosmos, ambiente em que seus dotes intelectuais e suas habilidades construídas a longo do tempo de nada servem ante a incerteza das consequências de suas atitudes.   

Como um cometa que passou e que nunca irá visitar este planeta, LUZ SILENCIOSA é uma experiência singular, que certamente não mais se repetirá.

Sem dúvida alguma, no que tange a filmes sobre a natureza humana, é um dos melhores que já assisti.

Vai aí o trailer em espanhol.


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