quinta-feira, 16 de julho de 2015

LEVIATÃ

O cinema russo, uma de minhas escolas mais amadas, possui uma capacidade de se reinventar impressionante.

Ali surgiram alguns dos primeiros filmes de alcance mundial, ainda nas primeiras décadas do século XX, calcados na discussão política, uma problemática constante na época e que gerava os blockbusters de então. 

Neste circuito, um nome notável foi o de Serguei Eiseinstein, que produziu O Encouraçado Potemkin, grande ícone da Revolução Russa de 1917.

Quase cem anos depois, o fôlego do cinema russo permanece tão grande quanto a extensão das estepes daquele país-continente, e prova disso é LEVIATÃ (Leviafan - Rússia/2014).

Obra-prima contundente, que narra a saga de uma família que mora nos confins árticos do Mar de Barents, no Norte da Rússia, e que se vê oprimida pela implacável arbitrariedade dos poderes constituídos e das figuras de autoridade que os representam, na medida em que lutam pela  manutenção da propriedade em que vivem, altamente cobiçada.

Um advogado moscovita, aparentemente compadecido do drama, resolve patrocinar o chefe da família perante todos, entrando em atrito com todas as esferas, num tenso jogo de interesses que revela o pior lado de cada um dos personagens da trama, onde nem tudo parece se rtão idôneo quanto se mostra.

Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro de 2015.

DE 0 A 10 = NOTA 10!

LEVIATÃ foi minha preferência para ganhar o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro neste ano.

Uma perfeita coexistência do Leviatã descrito na narrativa bíblica do Livro de Jó ("poderias tu pescar o leviatã com linha e anzol, ou atar-lhe a língua com uma corda?") com a mesma criatura de caráter mitológico que inspirou Thomas Hobbes a teorizar acerca da figura do Estado em sua famosa obra homônima àquele monstro.

Em outras palavras, Igreja e Estado, além de outros elementos, constituindo uma força una na missão de ser o mecanismo coercitivo da sociedade.

Uma produção única, corajosa, que desce como um punhal até a medula da alma russa, retrato que igualmente se ajusta a muitos regimes hodiernos nominalmente "democráticos", em que toda as regras oficiais são rasgadas em prol dos interesses mais escusos.

A fotografia caiu bem em meu gosto, servindo de metáfora à frieza do enredo.

Teve sua exibição proibida na Rússia, sendo liberada somente depois de uma versão editada ser confeccionada.

Um filme talvez difícil de digerir, mas sem dúvida um opus que veio para ficar.

Trailer em português.

Nenhum comentário:

Postar um comentário