segunda-feira, 27 de julho de 2015

MARIA CHEIA DE GRAÇA

Uma das funções supostamente delegadas ao cinema de arte é apresentar tramas que fogem ao convencional e tratam de mostrar a realidade de diversos países fora do conhecido estereótipo que os acompanha no imaginário popular. 

E isso é muito louvável. 

Já pensou se ser americano fosse apenas perambular por ruas da Costa Leste ou Oeste, sob abastada ostentação? Ou se ser grego fosse somente viver quebrando pratos enquanto se dança a ciranda sirtaki? Imaginem ser brasileiro unicamente pelas instituições que nos fazem famosos lá fora - carnaval, futebol, praias ensolaradas - para não citar algumas evocações acerca de nós em malam partem... Deus nos proteja!

Resolvo fazer este aparte antes de iniciar a resenha de hoje pois não agirei no espírito contrário, já que será abordado um tema muito associado ao país de origem do filme em questão, assunto que o tornou mais conhecido internacionalmente, mas o faço com muita convicção de que, mesmo trabalhando com um lugar-comum ao panorama moderno da Colômbia, estarei a mostrar uma obra forte e densa.

MARIA CHEIA DE GRAÇA (María, llena eres de gracia - Colômbia, EUA/2004) mostra a protagonista título do filme, habitante de uma vila do interior colombiano, sem qualquer perspectiva de mudança de vida. 

Mata o tempo em bailes de rumba e num namoro enrolado com um chico, tudo para escapar da conflitosa dinâmica familiar que vive junto aos seus numerosos parentes e da asfixiante relação que trava com seu patrão, numa empresa de exportação de rosas.

Sob severa pressão por mais dinheiro para pôr no lar, seguindo uma proposta de um jovem que conhece numa festa, Maria ingressa numa empreitada assustadora - ela se propõe a servir de "mula", levando no interior de seu corpo cápsulas de cocaína para os EUA, viajando sozinha de avião, sob a promessa de receber muito dinheiro pelo serviço.

No interregno dos preparativos, ela conhece outras moças, veteranas na ponte aérea ou que estão embarcando pela primeira vez na jornada, como ela mesma.

Mas as semelhanças com suas companheiras recém-conhecidas param por aí. Maria não sabe, mas ela está grávida, e no momento em que descobre este fato toda a aventura toma um rumo imprevisível.

Catalina Sandino Moreno, que incorpora Maria, venceu o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Berlim, além de ter sido indicada ao mesmo prêmio no Oscar de 2005.

DE 0 A 10 = 9

Embora ligeiramente clicherista, o enredo surpreende.

Muitas vezes não é a tensão que toda a história gera em quem está assistindo o que dá a tônica para caracterizar este filme como destaque em sua linha (e ponha tensão nisso).

Há momentos em que os personagens desempenham o processo do tráfico de drogas com uma frieza quase profissional, como se já formatados para aquele tipo de coisa, e isso é um dos pontos mais desafiadores do filme.

Um retrato dos nossos dias, em que a vida humana é por vezes contabilizada abaixo de interesses individuais, quando não ilegais, sendo a dignidade que lhe cabia ignorada de maneira repulsiva tão frequentemente, atestação esta que se confunde com um subtítulo escolhido para esta obra: 

"Baseado em milhares de histórias reais" .

Trailer.



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